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31.3.03
Para salvar um dia, bastam pequenas mágicas no começo da noite: Enfiar a cara na barriga da mãe e soprar, fazendo muito barulho, para ela morrer de cócegas. Começar a fazer cafuné no outro e dormir antes, para ver um sorriso quando acordar. Morder a ponta do dedo alheio, por nada, a não ser pelo prazer táctil. Beber uma garrafa de vinho com uma amiga, adoçando a boca com chocolate ao leite. Servir de cavalinho à prima de cinco anos, amazona como ela só. Falar putaria com a babá ninfomaníaca, ex-freira, louca por bruxas, doidinha de pedra. Deitar na rede, todas as luzes apagadas, lua na janela e o violino de Itzhak Perlman. Hoje, minha opção possível foi essa última. Valeu. Perdi o trem? Cadê a plataforma? Onde fica o embarque para o futuro? Por que o relógio está parado? Por que eu parei? Adorei a metalinguagem do filme. E as palavras, as sugestões, as paisagens, os corpos, os beijos, as formas, as sensações despertadas... Agora, quero cair num buraco e começar a história de novo. É, acho que é disso que estou precisando. 30.3.03
Lucia e o sexo no CineSesc hoje, às 20:30h. Teca diz que é imperdível. E vai me arrastar para conferir. Sair de casa no domingo à noite, só se for cinema. Ou amiga. Ou ambos, tanto melhor! Acordei citante. Sobre a guerra, Roland Barthes: "Que a diferença se insinue e se consagre no lugar do conflito." Sobre o frio na minha cama, Quintana: "Eu quero os meus brinquedos novamente sou um pobre menino, acreditai! que envelheceu um dia de repente..." Não sei se é bom ou ruim, mas é, de fato, assim: sou um velho de 25 anos. 29.3.03
Programação do sábado: - dormir até tarde; - encher o bucho de feijoada, conversando miolo de pote (1) com a galera; - tomar milk shake de Ovomaltine housemade; - assistir a "Road to perdition" no vídeo; - criar vergonha na cara e responder uns e-mails; - deitar cedo e sonhar acordado com uma cama humanamente aquecida. Notas: (2) (1) "conversar miolo de pote" é uma expressão usada em algumas regiões do Ceará, sinônima (por associação) de "conversar água", que significa falar besteira (2) as notas são um recurso copiado descaradamente dela, que imitou ele, que sabe Deus de onde tirou a inspiração Ainda descobrindo sobre a noite de quinta, um comentário sobre mim, de um amigo da prima da amiga: "É, ele tem cara de cachaceiro, mesmo." PÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉSSIMO pro meu currículo! Que eu gosto de cachaça, todo mundo sabe; mas acho que eu preferiria "ter cara" de quem gosta de milk shake de Ovomaltine, por exemplo... 28.3.03
Espetáculo! Já posso divulgar uma boa notícia para alegrar o fim do dia: o livro da Dani está chegando às livrarias no começo de abril, com direito a rega-bofes e tudo mais! Quem quiser dar um upgrade da estante e, de quebra, conhecer meio mundo blogueiro, basta marcar presença (e comprar o livro, óbvio) na Siciliano do Shopping Higienópolis (dia 11, por volta das sete). Por enquanto, clica no banner aí embaixo para ver o que a moça tá aprontando! ![]() P.S.: Quem fez o lindo, maravilhoso, incomparável hotsite do livro foi meu amigo Cabeção, talentoso como ele só. Acho que sou um bêbado do tipo "amigo erótico": algumas doses depois e lá estou eu recitando as mais rasgadas declarações de amor, abraçando, beijando, metendo a mão nos peitos e qualquer outra forma suficientemente, digamos, incisiva de demonstrar meu carinho. Claro que devo ficar insuportavelmente grudento e chato, mas juro não haver melhor intenção. Ontem rolou festinha de despedida da Docinho, minha grande amiga que está de mudança para Fortaleza. Cheguei tarde, um tanto alto, e parece que a embriaguez atingiu picos indesejados. Pra variar, fiquei sabendo da noite pelos outros, que meu cérebro [ainda] não é alcohol proof. O que posso dizer é não, eu não acho isso bonito, nem tenho orgulho de fazer besteira quando bebo, por mais bom-humor com que encare as marmotas. Cansei de arrotar promessas cínicas, mas tá na hora pensar minha relação com o copo. Acordar achando que tem uma melancia no lugar da cabeça - e passar metade do dia detonado como eu estou - não tem graça nenhuma. 27.3.03
Depois de gozar, a gente sempre ria junto. Esse era o momento mais sublime dos meus dias, e não lembro de jamais ter sentido tanta liberdade quanto nessas horas em que o mundo parava pra ver dois loucos alardeando tanta felicidade às gargalhadas fartas. Já posso dizer sem medo: hoje sinto mais saudade daquele calor e daquela comunhão que do rosto que eles tinham. Mas a lembrança ainda arde aqui dentro, não tenho como esconder. E, abusando do chavão, sei que ainda vou rir muito disso. Quando perguntei do seu medo, queria falar do meu. Mas, depois de conversar com uma amiga, percebi que não era para o mundo que eu precisava dizer qualquer coisa, pois o motivo das minhas divagações tinha nome e data. Escrevi uma carta, então. Aquela que nunca foi entregue, com as palavras que não foram pronunciadas, entupidas do sentimento finalmente compreendido, agora que controlado, acalmado - sereno? Essa carta não será lida, manterei o silêncio, você já não existe na minha vida. Uma pena. Uma dor. E a conformidade que se instalou à força me parece sombra da verdade que preferimos calar. Assim encaro, na esperança de ainda haver o que partilhar sobre nossa história - ou devo exercer sozinho o duro trabalho de tentar explicar? Eu tenho medo de amar. Tenho medo dessa coisa louca, sublime e esquisita que é o amor. Tenho medo de me sentir tão vivo de novo, de o relógio parar, de perder o controle e o arbítrio. É tão mais fácil estar em paz... quando o vulcão no peito explode, às vezes falta espaço para tanta lava - e, Deus, como esquenta! Sim, tenho medo. Mas, citando Whitman, "pois muito bem, eu me contradigo": esse bicho que tanto me amedronta, vejam só, move meus passos e orienta meus dias justamente por ser o que com mais afinco desejo. 26.3.03
quem quiser gostar de mim como sou, seja muito bem-vindo/a. quem quiser me ver através dos dogmas sociais, do filtro dos preconceitos e do moralismo, quem quiser rotular minhas atitudes e achar que eu não valho a pena e que eu não mereço respeito, amor e admiração, paciência. azar. vai perder o prazer de conhecer uma grande figura. Grande figura. Como disse lá nos comentários, não entendi quando a Rô resolveu publicar as fotos dos seios (eita, te prepara pra enxurrada de visitantes curiosos, gata). Sou moralista, sim, e arrumo argumentos para criticar o que quiser, mas não posso negar que foi um tapa na cara ler a explicação justa, cabida e muito lúcida (eu achei) que a Rossana deu para se mostrar da forma como lhe parecer mais apropriado, seja nas fotos, no texto, na vida. Hoje, você me conquistou mais um tanto, minha amiga. Meu respeito, meu amor, minha confiança. E quer saber? Tem mais é que abrir o peito e mostrar os peitos, sim! E a foto ficou linda! ![]() 25.3.03
A semana começou com a promessa de noites bem dormidas e trabalho pesado no sábado. Mas isso era ontem, segunda-feira - quem disse que o mundo não dá voltas? Hoje descobri que o treinamento empata- Benedito previsto foi adiado, olha que maravilha! Mas nem bem comecei a planejar meu ócio quando o infalível personal promoter da guarda (larga do meu pé, chulé!) entupiu minha agenda com coquetel na quinta à noite, bota-fora de amiga depois, festa misteriosa na sexta (vê lá o que tu vai me aprontar, hein?), café da manhã (profissional, saco) na manhã de sábado, feijoada privê em seguida, convite "irrecusável, não quero nem saber" - esquema Saturday Night Fever, pelo que entendi - e aniversário bicão no domingo. Jesus, Maria, José! Outra terça como essa e eu viro o João Paulo Diniz! E bora nóis, que a vida é curta, o tempo voa e um partidão livre, leve e solto como eu tem mais é que circular mesmo, oras! Tremei, mundo, tremei! Talvez eu seja muito audacioso por cutucar assim, mas nunca neguei minha petulância, meu atrevimento. Alguém já alertou para o quanto me agrada provocar - mesmo que o faça inconscientemente, não tenho como resistir. Instigo, sim. Então me diz: do que você tem medo? 24.3.03
Estava pensando que não faço idéia de quantas bocas já beijei. Nem um número sou capaz de chutar - só sei que foram muitas. Olhando para trás, percebo um vazio, uma sensação desconfortável de insegurança e despropósito: queria que essas bocas todas tivessem nome, onde, porquê. Queria que elas tivessem histórias. Minha vida afetiva-sexual começou tarde (em relação aos meus amigos de então). Beijei aos 14, transei aos 17, namorei sério aos 19. Nunca fui comedido, e, com as descobertas, vinha uma desmesura urgente de "recuperar" o tempo "perdido". Afoito, saí experimentando, testando sem muito critério, apenas para avaliar o (meu) potencial bacante e apolíneo. Parecia bom, talvez até tenha sido necessário, mas hoje me faz falta lembrar com mais carinho de algumas pessoas (ou de todas as pessoas), como me incomoda pensar que, para muitas delas, não sou mais que estatística. É ruim não deixar marcas, né? Tá, Chicago ganhou. O filme tem muitos méritos, e fico feliz por vislumbrar um novo fôlego para os musicais, gênero que eu adoro. Particularmente, me agradam mais a poesia de O pianista e o texto certeiro de As horas, mas a Academia tem lá seus critérios, e até que surpreendeu nesse ano ano, contrariando as apostas de gente metida a sabida feito os críticos de plantão do SBT, Marília-Gabi-e-que-óculos-era-aquele e Rubens-Ewald-Pássara-de-fôga-mor - aliás, nunca agradeci tanto pela tecla sap da minha televisão (que vive moribunda no quarto, talvez um ano sem ser ligada), já que o canal TNT resolveu presentear seus espectadores com o suplício da tradução simultânea também.
Fiquei muito feliz com o reconhecimento pelo (difícil) trabalho do Adrien Brody! E com a justa premiação ao roteiro adaptado (da biografia do músico polonês Wladislaw Szpilman) e à direção do Polanski - me pareciam esgotadas as possibilidades de boas histórias sobre o Holocausto, mas O pianista me fez dobrar a língua com a contundência do retrato de guerra e a sutileza das sugestões. E tem o piano, claro. O tango dos dedos no teclado, o trançado que origina o som, eu me arrepio só de lembrar. Estou hipnotizado por esse instrumento desde quando vi Holy Hunter em The piano (aliás, é a trilha que toca agora, enquanto escrevo). Mas voltando ao Oscar, outra surpresa foi a escolha de Bowling for Columbine como melhor documentário. Pelo visto, pouca gente acreditava na vitória do invocado Michael Moore, que critica o belicismo ianque e fez questão de soltar um (muito oportuno) "Shame on you, Mr. Bush!".
Outro prêmio que me agradou foi o de Melhor Atriz para Nicole Kidman. Há quem diga que foi uma mea culpa da Academia, mas faz tempo que me rendi ao charme e talento da ex-Sra. Cruise. Suas atuações em To die for, De olhos bem fechados, Os outros e Moulin Rouge, para mim, vêm marcando a evolução dramática da pérola dourada da Austrália (brega pouco é bobagem), coroada agora com a estatueta pela interpretação de uma Virginia Woolf perdida, louca, densa, apaixonada. Forte. Sensível. Em suma, foi o programão que eu esperava. Faltou tapete vermelho, faltou Cidade de Deus, sobrou piada sem graça, exagerei no sorvete, torcemos e vibramos, Eminem vai ficar mais rico e Caetano tremeu, que eu vi. No ano que vem, tem mais. 23.3.03
Momento mulherzinha Hoje eu queria um Dia de Noiva: me enfurnar num salão de beleza branco e amplo para fazer as unhas, cortar o cabelo, limpeza de pele, massagem, cremes cheirosos e um sonho de beleza e conforto ao cair da tarde, o sofá me esperando com um balde de pipoca e dois potes de sorvete para assistir à entrega do Oscar. A noite foi para confirmar: não sou fácil. Não estou a fim de desenvolver, mas preciso registrar: já não basta o charme. Penso precisar de tanto mais que minha consciência questiona essa auto-estima tão segura, tão parametrizada, que elimina a média buscando sempre a discrepância máxima, como se isso fosse garantia de final feliz. Não é, eu sei, mas sou um sonhador. E sou teimoso, e sou burro, e sou arrogante e sei o que tenho guardado para dar. Não saio dando amostras vãs. 22.3.03
Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria. (isso pra mim é viver) Das estrofes mais lindas do Djavan, escolho essas. Que pontuam a simbiose crescente com minha homemate. Que me lembram de deitar a cabeça no ombro da Rafa, tanta saudade. Ah, se eu tivesse mais alma! 21.3.03
Que tipo de gente eu sou... Sou do tipo que anda na rua fazendo caretas, meio escondido, pensando se tem alguém vendo no alto daquela janela e rindo do doido apressado lá embaixo. Do tipo que fica puto se cai um toró e aquele motorista do mal acelera na poça d’água pra me dar um banho. Que dá uma limpadinha se o último pedaço de chocolate cai no chão – só pisa gente conhecida, né? -, que gosta de levantar os amigos (mais leves que eu, veja bem) no ar e rodar rodar rodar, que não sossega enquanto não lembrar o nome daquela música de que a gente falou a tarde inteira, que adora tomar vinho bom, mas compra pelo preço mesmo e Deus proteja. Sou dessas pessoas que guardam segredo, mas falam pelos cotovelos. Com muitas manias, umas esquisitices e neuras, fobias inexplicáveis, achando graça sozinho do que parece banal a (maioria d)os outros, me desfazendo em lágrimas quando a mocinha morre no final do filme, fazendo apostas com o relógio (do tipo “se eu conseguir passar daquele poste antes do ônibus, vou ganhar na Sena amanhã”) para dar impulso à vida. Sou do tipo de gente que sonha. Derrubar livros e papéis na rua depois de um esbarrão com o próximo grande amor, desbravar as praias virgens prometidas pelo guia da excursão paga em duzentas e treze suaves prestações, inventar uma pílula revolucionária anti-estresse, arranjar tempo para ler todos os grandes livros, trabalhar apenas por prazer, comer toneladas de chocolate sem engordar um grama (nem ter o rosto entupido de espinhas), ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer, assoviando uma música bonita. Tem muita gente que sonha com isso, e eu tô no meio. Sou inteligente, intransigente, indulgente, exigente... É isso. E muito mais, óbvio, mas o resto fica pra mim, que sou da gente impaciente e desmedida, que abre o coração às vezes, mas sabe o valor da introspecção e a hora de ficar por aqui. Hoje eu vim ao escritório esperando pelo pior - mesmo sem saber o que poderia ser esse "pior". Muita coisa estourou nesses últimos dias, pisei na bola (de leve, mas pisei), estou cobrindo o desfalque de três funcionários e, por isso, deixei acumular algumas obrigações (falta tempo, não sou dois). O fato é que, depois de uma noite mal dormida, tenso, tinha certeza de porradas nesta quinta-feira, 20 de março de 2003. Mas alguém lá em cima me abençoou, pelo visto, e estou conseguindo resolver os problemas rápido e com muita segurança, feito engrenagens de um relógio bom. Até agora, pelo menos, tudo está se ajeitando. Meu anjo da guarda amanheceu disposto e arregaçou as mangas. Companheiro, te devo essa. E o laquê do Bush, hein? Nunca pensei que qualquer transmissão televisiva sobre uma guerra pudesse ser tão, hum, pitoresca. Mas eu adorei a palhaçada - como a gente diria lá no Siri-ará: IIIIIIIIIIIIIIIIIIIEI!!! UPDATE: E, segundo o espertíssimo apresentador da Globo News, nada de extracurricular acontece em Bagdá. Pois é: IIIIIIIIIIIIIIIIIIIEI!!! 19.3.03
Queria escrever, ler, encontrar meus amigos, comer direito, ter tempo para pensar. Mas estou precisando me satisfazer com o intervalo para o sono, e olhe lá. Ao mundo, peço desculpas pelo sumiço intermintente e temporário. Em breve eu volto - ou fico de vez por ali. Saddam Hussein e George W. Bush se encontram pela primeira vez, em Washington, para discutir a paz. Quando Saddam sentou na poltrona destinada a ele, pôde ver que havia três botões na cadeira de Bush. Depois de cinco minutos de conversa, Bush apertou o primeiro botão, e uma luva de boxe saiu do braço direito da cadeira de Saddam e socou o ditador iraquiano na cara. Confuso, Saddam continuou falando sobre paz enquanto Bush ria. Alguns minutos depois, Bush apertou o segundo botão, e uma bota acertou o traseiro de Saddam. Bush gargalhou tanto que apertou o terceiro botão e um balde de água caiu na cabeça do iraquiano, enquanto o presidente americano rolava no chão de tanto rir. Finalmente, Saddam se tocou de que o processo de paz havia fracassado e voltou a Bagdá. Duas semanas depois, as negociações recomeçaram, e foi a vez de Bush ir ao Iraque. Quando o americano chegou à sala do iraquiano, percebeu que na cadeira de Saddam havia três botões e ficou preparado para a revanche do ditador. Eles começaram a conversar e Saddam apertou o primeiro botão. Bush se encolheu todo, mas nada aconteceu. Saddam caiu na risada... A conversa continuou e, alguns minutos depois, o ditador apertou o segundo botão. Bush deu um pulo na cadeira, mas nada aconteceu... e Saddam caiu na gargalhada. Poucos segundos depois, Saddam apertou o terceiro botão. Bush arregalou os olhos, mas nada aconteceu. Saddam rolava no chão de tanto rir. O americano, irritado com aquela bobagem, levantou-se e disse: - Esqueça a paz! Estou voltando para Washington! E Saddam, rindo feito louco, disse: - Que Washington? OBS.: A gente ri de nervoso, porque mais tarde vencem as tais 48 horas que o Bush estabeleceu para o Saddam deixar o Iraque. Gosto de fazer graça no meio do dia para aliviar o estresse, mas tô com o cu na mão pela possibilidade de um conflito desses. 18.3.03
wants to be a hunter again wants to see the world alone again to take a chance on life a g a i n (again again again again) so let me go
"Não devemos abusar das palavras quando não podemos dar seqüências práticas a elas." (Fernando Henrique Cardoso, nas páginas amarelas da Veja desta semana) Não votei nele, mas admiro muitas das suas idéias. A entrevista aborda questões sérias como o Fome Zero, política externa e a iminência de guerra. À parte as críticas a seu governo ou suas posturas, é válido saber dos pontos de vista do FHC: oito anos na Presidência do Brasil lhe dão lastro para falar o que pensa. Concordemos ou não. É, não deu mesmo. Bem franco: nem vontade senti. E não foi apatia ou revolta, apesar do estresse (de sempre) no trabalho: produzi loucamente, encaminhei todas as pendências, prestei atenção à aula na faculdade, lavei louça do jantar, estou até pensando em ler alguma coisa menos leve - mas duvido que o sono permita... Às vezes a gente precisa direcionar a energia a outros focos. 16.3.03
ALERTA !! ALERTA !! URGENTE !! SE VOCÊ NÃO É GUEY NÃO É LESBICA NÃO É HOMOSEXUAL E NEM SIMPATIZANTE, SAIA AGORA DESTE DEBATE, NÃO LEIAM O QUE "ELES" ESCREVERAM, FECHE TEUS OLHOS E SAIA URGENTE POIS AS MENSSAGENS DELES ENTRARAM NO SEU SUBCONCIÊNTE E VÃO CONFUNDI-LO PARA ACEITAR ESTA RAÇA NOGENTA COMO ALGO NORMAL E NATURAL. ATENÇÃO SAIA E NUNCA MAIS VOLTE PARA ESTE DEBATE POIS O SUBCONCIÊNTE É UMA VERDADEIRA ARMA VOLTADA CONTRA OS SERES HUMANOS QUE NÃO TEM DOMINIO SOBRE ELE 99,999990001000 % DA POPULAÇÃO MUNDIAL. TENHO DITO E REPITO MORTE AOS HOMOSEXUAIS !!! (sic) Achei essa pérola (escrita pelo moleque goiano autodenominado Urufin) por acaso, em um fórum ridículo sobre "homossexualismo" no portal da Globo. Não é difícil imaginar que a discussão ali é profunda feito um pires: como me recuso a rebater a ignorância desse pobre infeliz, nem recomendo checar. Vale mais visitar o blog do Sérgio e conferir o primeiro post do dia 15.03.2003 ("Homossexuais na TV" *), em que ele aborda a forma como alguns gays reforçam o preconceito quando - insconscientemente, prefiro acreditar - reduzem (ou superdimensionam) seus desejos a fórmulas tradicionalmente perpetuadas para sustentar que a homossexualidade é uma aberração perniciosa e imoral, ai, ai. A questão é tão mais simples! Basta a gente fazer o que sente vontade e respeitar a liberdade do outro, lembrando que esse "outro" também somos eu e você, né? * Esse post rendeu um papo muito lúcido nos comentários! A agenda básica dominical consiste em acordar por volta do meio-dia, internetar, almoçar qualquer coisa no meio da tarde e ver TV até a hora de dormir (ai, que saudade do Fama...). Assim são 90% dos meus domingos, a não ser quando alguma louca me convence (a muito custo, diga-se) a botar a cara na rua e dar uma volta. A não ser que eu precise levantar cedo para trabalhar de pé por seis horas, correndo, ouvindo, checando, arrumando, brigando, pedindo desculpas, prometendo, anotando e, claro, sorrindo o tempo todo, como bom profissional de Relações Públicas que eu sou. Devia virar palhaço de circo, com essa simpatia toda. 15.3.03
Desde já peço desculpas por eventuais coices que eu sair distribuindo - é que os últimos dias não vêm sendo fáceis. Discuti ontem com a chefia, fiquei seis horas do meu sábado no escritório, mil desencontros, cansaço, ressaca, mais trabalho amanhã (e domingo é meu dia sagrado de ócio) e uma semana difícil pela frente. Vou ficar quieto e tentar controlar os ímpetos. Tentar, pelo menos. Noite de sexta-feira é cruel para mim: é quando o meu [resto de] ser, fustigado pela correria e pelo estresse da semana inteira, abre concordata. Ontem eu tava um caco, destruído. Cheguei em casa e, depois de muito me consumir tentando escolher entre quatro opções de programas (sem forças sequer para comer, imagine), tomei um banho de energização e me taquei pro aniversário de uma amiga. Lugar meio hype, 25 pilas de entrada, Ragatanga no som, ai. Mas reencontrei muita gente querida, e a festa era naquele esquema open bar: castanhas diversas no balcão, bebidas à vontade. Com o corpo tão moído (o cérebro, coitado, já nem funcionava havia horas), a solução foi a anestesia à base de álcool - a caipirinha, forte e doce demais no começo, transformou-se em poção mágica na sexta dose. Depois da décima, então, eu parecia o Jackie Chan dançando break! Quando acabou a caipirinha (acabei, talvez?), veio a vodka com suco de pêssego, acho. Aí cagou tudo. Agora estou eu no escritório, tentando me convencer de que não tem um ogro roxo tamborilando os dedos na mesa ao lado, sentindo o mundo todo meio fofinho, ouvindo ecos dolby digital quando alguém fala e rezando para não morrer com esse gosto imprestável de cachaça no fundo da goela. Nunca mais vou beber. (só para não perder o costume...) 14.3.03
Meia vida minha atrás, eu vivia de calção, camiseta e havaianas, me deliciando com salgadinhos amarelos sabor vagina com limão - do tipo Croc e Xilitos -, saracoteando pela casa ao som de Eliane, a Rainha do Forró, vendo tudo quanto era filme Y de terror (B era luxo, nunca sobrava na prateleira da locadora) e me acabando com gibis de toda sorte: Heróis da TV, Super Aventuras Marvel, Força PSI (alguém lembra disso?), Disney, os cabeçudinhos do Maurício de Souza, Gugu, Turma do Alegria... Feito um bom Porto, venho melhorando com o passar dos anos. Hoje, que me tornei um homem sofisticado, admirável, trabalho de paletó e gravata alinhados, degusto queijos e chocolates finos, ouço jazz muito chique, Delalande e Charpentier, assisto a filmes de arte (olha aí, Chuchu!) na Mostra de Cinema – impino o nariz, falo da retórica visual de Fellini e tudo o mais – e posso arrotar que leio poesia russa engajada e ensaios filosóficos do Bobbio. Requinte, sabe? Ante o exposto, e prestes a ter meu busto esculpido em mármore de Carrara na porta do Paraíso, só queria entender: 1) do que preciso para entender Estatística? 2) quando vou descobrir que meu pai verdadeiro é um sultão trilhardário? 3) por que diabos, meu Deus, eu não largo da cachaça? (Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré) Poeta de cademia, De rico vocabularo Cheio de mitologia, Tarvez este meu livrinho Não vá recebê carinho, Nem lugio e nem istima, Mas garanto sê fié E não istruí papé Com poesia sem rima. Quero iscrevê meu volume, Pra não ficá parecido Com a fulô sem perfume; A poesia sem rima, Bastante me disanima E alegria não me dá; Não tem sabô a leitura, Parece uma noite iscura Sem istrela e sem luá. O resto desse poema, aqui. Para quem gosta de uns versinhos ou da transcendência, tem muito mais coisa boa por aí. Vamos celebrar este 14 de março, Dia Nacional da Poesia! Eu sou fuleragi, sim - quem não é? Bichos escrotos saem dos esgotos. Nunca disse que eu valia nada. Taí: disse não. O ruim é esperar que os outros não sejam também. (...) E só dá a Gruberova se esgoelando por aqui. Die zauberflöte no repeat, para fazer qualquer Edson Cordeiro calar - e olha que eu adoro a primeira fase dele. Gui, foi um presentão! Seu dia está MUITO corrido quando, depois de sete horas no tronco, seus olhos começam a marejar, a cabeça lateja e o sanduíche (vulgo almoço) engolido às pressas ensaia com a bateria da Mangueira no seu estômago. Seu dia está corrido quando, depois de quatro horas no tronco, você se dá conta de que ainda não foi ao banheiro, não tomou água nem ao menos levantou da cadeira, o que explica o torcicolo súbito e provavelmente vai justificar os espasmos do fim da tarde. Deve ser assim, né? Pois é. 12.3.03
Simplesmente PERFEITO!!! E o livro da minha amiga famosa que escreve muito muito muito bem (HAHAHAHAHA! Lembra disso, Chuchuzão?) já foi hoje rodar na gráfica! A foto da contracapa é surpresa, mas olha aí o sorrisão da mulher:
(foto: Claus Stellfeld) Em breve, o lançamento. E eu já me sinto na fila dos autógrafos! Os textos desse cara são muito bem escritos, inteligentes, engraçados e cheios de referências: um Neuhaus em meio a tantos chocolates genéricos de camelô. Pois é, quero ler mais. Minha auto-estima está pelas nuvens: ando de pazes com o espelho, trabalhando muito e bem, satisfeito com o que escrevo, entendendo pessoas e interações... dando conta, enfim. Um processo todo aqui dentro, centrado na forma tão particular com encaro a vida, a nortear o universo que emana do meu umbigo, sim: "onanismo holístico" me parece uma boa denominação. E esse é meu momento de gozar. (vários posts com referências sexuais por aqui, né? zinco acumulado, deve ser) 11.3.03
AAAAAAAARGH!!! Parem o mundo que eu quero descer! Que loucura é essa, minha gente? (Sim, tô no tronco. Levando chibatadas sem parar. E a foto foi só para mostrar meu bocão enorme.) CHIC Escolhendo a indumentária para vir ao escritório hoje, reparei que minha arara (não tenho guarda-roupa) é um tanto colorida. Lembrei de um closet que conheci meses atrás, desses de gente chique, e a comparação foi inevitável: Lá - dezenas de camisas pretas, muitas calças pretas (alfaiataria da boa), cuecas pretas, casacos pretos, uma jaqueta de couro e um sobretudo (ambos pretos, lógico), sapatos pretos, uns três pares de tênis no grito da moda, quatro ou cinco camisetas brancas e uma verde bem escura, quase preta. Duas sungas, acho: uma preta e outra azul marinho. Cá - (...) bom, eu tenho umas camisa listradas, meia dúzia de brancas, uma lilás, outra com imagens de Ganesha (passei o Reveillon com ela), uma calça boca de sino, várias jeans, cuecas pretas e brancas (uma vermelha aqui, outra laranja ali), uns cinco pares de sapatos pretos, confesso... mais um tênis vermelho, outro azul com um saltão (da minha época de drag queen, HAHAHAHA!) e umas sandálias de véi que eu ADORO, um casacão russo cor de caramelo com um forro psicodélico indescritível, gorrinhos, gravata rosa, gravata dourada, gravata esquisita, meias roxas, meias vermelhas, Havaianas vermelhas (gosto muito de vermelho), e das minhas sungas lindas não vou falar porque tem gente que vai me encher as paciências mas eu nem tô! E viva a diferença! FOTOS! Na verdade, são highlights do momento eu-sou-cineasta-pra-caralho da minha consorte doméstica, em sua comemoração de aniversário - SÓ DEUS explica como não fomos expulsos depois de tanta zoada madrugada adentro, mas enfim.
Shake your groove thing, shake your groove thing...
I'm too sexy for my body!
Dancing Queen, feel the beat from the tambouriiiiine... E ainda tem mais fotos lá! 10.3.03
Ai. De repente (ah, súbito cruel!) me bateu vontade de uma barriga para encostar a cabeça e dormir, ouvindo música bonita, daquelas de amor, cafuné de leve, carinho, o idílio de sempre, ai, ai... Lembrei de um poema, Florbela [me] Espanca, musicado pelo Ala dos Namorados. Um grito contido aqui, peito arfante, saudade de um tempo bom. Desejo de mais. Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! Por elmo, as manhãs de oiro e cetim… É condensar o mundo num só grito! É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente! Saudade. Saudade, saudade, saudade. Também saudade, mas essa eu mato daqui a pouco. Muita, muita saudade. Quase insuportável. Saudade do sorriso, saudade do papo, saudade inteira. Fora todas as outras saudades sem links, que, não cabendo no peito, jamais caberiam aqui. Amanheci querendo abraços. Ei, "Pixote" é o teu nariz! Me deixa usar meu gorro em paz, tá, seu chato? Cara de marginal, eu sei, ainda mais com essa barba recém-feita... mas eu fico gatinho, nem vem, HAHAHAHAHA! Eu, a homemate, Dani, Rô. Camarões ao alho e óleo, espaguete à pseudo-bolonhesa, sorvete com amanditas, cookies. Vinho, guaraná diet, coca gelada. Maria Bethânia, Caetano, Nina Simone, Cranberries. Papo sobre direitos trabalhistas, virilhas na Playboy, maconha, anamnese, exibicionismo. E o melhor programa para a noite de sábado. Por que você se mete tanto se não sabe? A quem você quer impressionar? A mim? Ah, é preciso de mais, muito mais para me convencer, que eu nunca fui fácil e venho melhorando, maturando, encorpando com o tempo e as porradas e carinhos da vida. O que não me torna, de forma nenhuma, mais deglutível ou agradável - pelo contrário: só pioram minhas neuras, meu senso crítico, a careta que escapa quando a frustração vem na forma de ortografia falha ou descordância. Esse é dos retratos que guardo no álbum, bem antes do sorriso produzido para a posteridade que você exibe com tanto prazer naquela velha polaroid. Cuido dos detalhes, daquilo que espero que o outro veja, como espero que o outro cuide para que eu veja e possa abrir, então, um sorriso para a posteridade, nunca produzido, todo sincero, pontuando a sintonia, enfim. Mas eu sou difícil, complexo, maior. E insuportavelmente nojento, quando quero. 7.3.03
Depois da noite de sono e da tanta reflexão, juro que já não ia mais falar, porque nem eu consegui estruturar o que estava sentindo em um código minimamente lógico – então, melhor deixar pra lá. Mas aí veio hoje, e com hoje chegaram e-mails, ligações, visitas, outro tipo de ligações, links e tudo parecia se ligar mais do que o suportável ou compreensível. É que o mundo é ridículo, sabe? A vida é ridícula, assim como Deus, a Hebe, o carnaval, eu e você. Quantas histórias se podem contar? Um sem número? Todas? Meia dúzia, digo. Mudam as roupagens, os intérpretes, mas estamos sempre falando das mesmas coisas, até os personagens se repetem, vivendo em círculos, deixando escorrer o tempo em uma ampulheta pequena e constante que se viraviraviravira... Ontem faltaram as palavras: elas se escondem, safadas, deixam a gente na mão e no olho, cruel paradeiro quando o reflexo no mesmo olho (ou nos óculos, meu caso) é uma tela de computador ou o papel branco da carta, quando à mão sobra o tato que falta à pena ou à língua, me entende? Não, eu não quero ser entendido, eu quero, isso sim, cruzar histórias e atestar quão ridículos somos todos nesse imenso faz-de-conta que escrevemos [intensos] ou cuspimos [malditos]. Então façamos de conta que as suas linhas dizem tudo. Façamos de conta que não há mais, muito mais nas trincheiras das linhas, que você se mostra por completo, assim como eu jamais seria capaz, que sim, você é exatamente esse texto bonito e coeso, enquanto as lacunas, ah, as lacunas você me deixa preencher como eu bem entender, encaixando meus sonhos onde mal cabe uma gota de suor perdida no metrô. Mas não te julgo: sei do prazer que é sentir-se aspecto, face, quase arquétipo, obscurecidos os defeitos, as cicatrizes e o resto todo que não se quer (deixar) ver porque distorcer a realidade tem lá seu charme. Você fala de mim, mas as meias palavras suas também exalam misericórdia: quem te interessa poupar? Eu? Você? Já não preciso dos eufemismos como outrora, tanto que deles fazia uso, tanto agora os desprezo. Seja homem, eu digo, como eu não sou o suficiente ainda, mas chego lá. Por que as desculpas esfarrapadas, por que esse me-espeta-que-te-cutuco, por que o jogo, por quê? Aonde você quer chegar? A mim? Mas eu sou tão acessível, tão “fácil”, oras! Quisera... Me cerco de espinhos e subo no pedestal da porta do Céu, bêbado de sonho e vestindo ricos trajes para esconder a podridão que é minha, sua, de todo mundo, limpos são os anjos, e eu conheci bem poucos e sei que não sou anjo nem homem, mas também não sou demônio - a não ser que assim pretenda. Eu? Eu sou uma coisa assim, meio sem forma, com gosto esquisito e cheiro de acho, brincando de brigar com você para me sentir algo próximo de pleno, que a troca subjetiva me sossega o ímpeto carnal contido a custo e gozo: este desviado, um disfarce; aquele, clausura e suspiro. Mas eu falo de você, que de mim é o resto do tempo. Você vem sem medo, dita o ritmo, segura e amassa nas mãos o controle como se fosse massa de pão, com força, com muitas intenções espúrias ou sublimes, mas é a máscara que grita, muito mais que o discurso ou o entorno, é a cara que você dá ao que diz e faz, é essa impressão que te trai, avisando ao bom entendedor – e eu sou bom nisso quando convém – do lobo fantasiado se chegando, pronto para morder este cordeiro aqui, sem saber que eu sou a serpente de fogo à espreita, sempre à espreita. O tempo não é amigo, vamos lembrar: ele foge, escorrega, desaparece. E mesmo assim, está sempre lá, não nos deixando esquecer quem é que manda, quem vai sobrar no final [dos tempos?]. Não, o Tempo não é amigo. É um velho ardiloso mancomunado com a Inocência, transformando as crianças que somos em projetos de homens que sonhamos ser, mas não é verdade, não é tudo verdade, essa é a grande questão. Eu criança sou velho ardiloso sonhando com o projeto da sua inocência de homem, coitados de nós. Não há vencedores, ninguém está lutando. Se soubéssemos do titereiro, talvez empreendêssemos um movimento contra as cordas que nos guiam (e prendem), mas é preciso trabalhar, aprender, amar, prover, escrever, ver, sonhar, dormir e multiplicar porque esse é o plano divino, é para cumprir tal missão que acordamos todos os dias e falamos, crescemos, vivemos. Assumimos, aceitamos o palco feito marionetes, mesmo. Mas eu ainda falo de você, que me insulta a inteligência com suas vírgulas mal postas, separando sujeito e predicado com a intenção velada de fugir ao dever da retidão. Você simula erudição, como eu, mas também chora no escuro, eu sei, quando está só e a música é aquela, eu sei, quando chove lá fora ou aí dentro, não importa, eu sei, você chora como eu e todo mundo. Você acha que é especial, único, que vai salvar as baleias, descobrir a pedra filosofal ou ganhar do computador em umas partidas de xadrez. Pode até ser que sim, claro que sim, mas você, veja, não é mais nem menos do que a escória nas sarjetas ou o presidente da América. Você é como todo mundo, como eu. Eu sou você, percebe? Erotismo no metrô Calor, aglomeração, tantos corpos e uma gota, única e densa gota de suor me escorre pelo sulco nas costas, por entre as omoplatas, pulmões, rins e quase nádegas. Inevitável o frêmito, sufocante o desejo pela língua áspera, quente, úmida a secar o caminho da gota até a nuca. Quase orgasmo. 6.3.03
Antes da lava que ferve, uma tentativa de redenção: Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse, pela resposta pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? (Drummond, Procura da poesia)
Aqui dentro borbulha - dia de ler blogs, fazia tanto tempo... E quando me saem as palavras, quando elas explodem sem controle, há quem me peça porquê, ansiando pela compreensão do que eu nem sonho racionalizar, puro sentimento que é. A essa gente, só posso retrucar, maroto e distante: você não vê? Sempre pensei que eu tivesse HPB, como meu pai. Mas hoje, pesquisando a respeito, descobri que um dos sintomas da Hiperplasia Prostática é a obstrução e conseqüente redução do fluxo urinário, justamente o oposto dessa mijadeira minha de cada dia. A estatística dessa manhã já bate oito desaguadas nas últimas três horas, isso não pode ser normal, minha gente. Se alguém tiver qualquer luz sobre tal anomalia fisiológica, me dê notícia, por favor! Até para mim essa "condição" é constragedora... "(…) nos encontrávamos no purgatório -, onde mais apropriado seria para nós dois?, pois ambos vivíamos procurando alguém que nos desse a razão para estancar a compulsão por praticamente todos os outros corpos iguais ao nosso - esse alguém que esperávamos acontecer e assim de súbito nos conduzisse ao pomar da cama, um outro alguém do mesmo gênero, é certo, pois essa adição do mesmo nos inspirava mais a pele, nossa fonte arcaica de afeição, desde o dia longínquo em que tocamos nosso púbis pela primeira vez sem a intenção de usá-lo para mijar, quando o gozo que até ali não virera em plenitude nos arrebatou justo da nossa própria forma para outra idêntica; era nesse campo que eu jogaria (…)" (João Gilberto Noll, Berkeley em Bellagio)
5.3.03
Quer saber? Dinheiro existe pra gente gastar, né? Tá, no meu caso ele não existe, mas foda-se: vou comprar aquele cd do William Byrd, Motets and Mass for Four Voices, na Fnac. Fazendo as contas, basta eu deixar de almoçar uns seis, sete dias. Ou não pagar a conta de luz - meus ancestrais se viravam muito bem sem interruptores, por que eu não conseguiria? O que me incomoda em "Gangues de Nova Iorque" é o excesso de violência, explosões e sangue. Isso, claro, para não falar da previsibilidade do "drama" e dos personagens, ou do padrão Mac Donald's do roteiro e das interpretações. Não gostei do filme, o que veio confirmar minha predileção por histórias de amor (nas mais diversas formas) e superação, tristes ou felizes, melosas como "As pontes de Madison" ou pesadas como "Dançando no escuro". Sonho com aquela música que aparece na hora do beijo, não canso de repetir isso. Canto na rua, danço nas filas, leio poesia, deve ser natural o fato de eu me identificar mais com desenhos animados da Disney que com reconstituições grandiosas de guerras e massacres: aprendo a preparar tomates verdes fritos, mas não me peçam para disparar um fuzil, oras! Sei que essa é uma visão bem parcial do cinema - qual não seria? - e tenho lá uns "foguinhos" (como dizem por ali) entre os preferidos, mas não adianta: eu sou aquele amante à moda antiga, os olhares românticos é que me arrepiam, não as rajadas de balas. Aliás, acho que vou alugar "Em nome de Deus" nesse fim de semana. Ou "A cor púrpura", pela décima oitava vez... ;-] 4.3.03
O carnaval surgiu como celebração cristã que precedia a quaresma. Nessa festa, os romanos comiam e bebiam por horas - já em trajes sumários, é verdade, mas a moda era aquela e não havia (tanto) apelo sexual - para aguentar a purificação pelo jejum premente do dia de Cinzas e das semanas seguintes. Hoje foi mais ou menos assim: fomos ao parque, comemos, ruminamos, de novo, deitamos, rimos, comemos mais e bebemos e voltamos ao lar para tirar um cochilo e esperar por amanhã. Essencialmente carnavalesco. Já está virando tradição: no ano passado, éramos eu e a psicótica empreendendo o I Grande Piquenique de Carnaval, em plena 3.3.03
É como se o tempo corresse mais devagar, e o ar estivesse mais quente. Sim, o mundo gira em slow motion e respira um hálito quente, ao mesmo tempo ácido e doce, e a resposta do corpo é o suor brotando na testa, a capilaridade das gotas anunciando que a Biologia encontra a Química para desconcertar qualquer Física ou Matemática: libido. Não é sempre - aliás, é bem raro –, mas há dias em que nem bem acordo e já sinto a pulsão tomar conta. Parece que cada movimento é de uma languidez ímpar, como cabe a um felino no cio pronto para a cópula animal, selvagem. Parece que a pele se incha de extensões nervosas (nunca "terminações"), e qualquer toque é um fósforo riscado perto da bomba de gasolina, a iminência da explosão dando mais sabor, o gosto de perigo estalando na língua salivada que mal cabe na boca seca de hálito quente como o tempo, o ar, o mundo. Admito: nesses dias, eu incorporo um personagem, faço tipo, caras e bocas, semicerro as pálpebras e entreabro a boca, olhando por cima dos óculos com cara de "sim, eu sou quente como o hálito da minha boca e como avisam as gotas de suor na minha testa, mas isso ainda não é nada". Ando feito gato, malemolente, lânguido, quente, quase lambendo minhas patas para sentir o gosto ácido e doce que pulsa nessa pele macia minha. Nesses dias de tempo lento, não é a roupa nem o perfume nem o sorriso de cristal: sou eu, animal, primitivo, pronto para atacar, dominar, prender o quanto quiser entre garras que não tenho, mas que passam a existir pela força [sobre]natural do meu sexo. Não é sempre – aliás, é bem raro -, mas há noites em que a fome grita tão alto que parede nenhuma é cela suficiente para a pulsão quente, o hálito lânquido, o tempo macio... E então eu troco o sorriso morno e meigo pelo olhar provocante, que instiga: você também quer? 2.3.03
Parte da folia deste carnaval, sem dúvida, é aproveitar o tempo livre para assistir a muitos filmes no cinema. Hoje fomos ver "As horas", do mesmo diretor que, três anos atrás, me levou às lágrimas e quase de volta à barra com "Billy Elliot". Sobre este novo filme, informação demais a processar: Nicole Kidman enlouquecendo (a si e a mim) como Virginia Woolf, Meryl Streep apaixonada por um poético Ed Harris moribundo e Julianne Moore em uma interpretação minimalista, profunda. Personagens, pessoas, sentimentos múltiplos e desejos despertados: como diria uma amiga, "filme bom" é quando o seu coração é tocado, quando as referências encontram ressonância (nunca esqueci dela explicando isso, aos prantos, saindo de uma sessão de "Colcha de Retalhos"). Este "As horas" mexeu comigo, vou ver de novo. E de novo. P.S.: Chuchu, não tem como não concordar: DEFINITIVAMENTE, a mulher é a portadora da complexidade. Das declarações de amores Eu amo muita gente, muita gente mesmo. Não sei explicar nem saberia dizer o quanto, porque amor não se mede nem se conta, é um negócio muito grande, muito largo no coração, corre ligeiro, dorme tranquilo, congela o tempo, arde, incendeia, consome, preenche, se grita, cala, é, simplesmente, plenamente, absurdamente é. Cresci cercado de amor, recebi muito carinho da grande família, sempre tive muitos amiguinhos. De bebê risonho, passei a menino beijoqueiro, quase grudento, passei a adolescente sem-problemas, descobri o abraço sinérgico na biodança e me libertei de muitas das já poucas (nunca tão atendidas) amarras ou privações sociais quanto a essa percepção da querência, do gostar. Sempre disse "eu te amo", sempre mandei beijo, sempre dei um abraço sincero – e sempre recebi isso de volta, porque (achava, acho, prefiro acreditar que) conseguia mostrar a verdade, a gratuidade sincera do sentimento. Nunca vi problema em demonstrar afeto – e fazia isso com muito a despreocupação de quem não entende o (des)amor. Eu me entrego. Todo mundo merece a chance de me ganhar, de receber parte desse monte de mim, não existe razão para privar pelo prévio, julgando sem saber, se quero tanto dar e receber mais e mais amor. Então eu abro os braços e o sorriso, deixo entrar, convido, abrigo, aqueço, faço rir se me é dada a liberdade para isso. Gosto da proximidade, concedo essa licença também. E vou levando, aprofundando, chegando mais, conquistando porque me deixei conquistar já. Tenho ouvido com frequência que sou "apaixonante". Deus, como isso é bom! Como é bom como é bom é bom é bom é bom! Mas tenho descoberto que tem muito mais coisa além dessa paixão, que a admiração nasce do que se vê sempre, mas nem sempre se vê tudo, nunca se vê tudo – aliás, o que se vê? Olhem nos meus olhos, eu digo, eles falam mais do que eu nunca serei capaz com as palavras ou o corpo ou o resto! O pacote, este pacote aqui, não leva só candura, inteligência, amabilidade – tem mais, tem muito mais, tem coisa ruim pra caralho também, eu já sonhei em ser perfeito, acordei, não sou nem pretendo. Sou gente, erro um bocado, busco acertar, às vezes não dá, mas eu tento, se encanto, isso é bom!, mas não quero posso prometo considero deliro agradar sempre. Só garanto a sinceridade e o brilho. Porque eu amo e isso faz brilhar, antes dos efeitos outros todos. Recebi esse texto por e-mail. Eu o escrevi em 23.08.2002, mas não podia ser mais atual nas minhas reflexões. Renata, muito obrigado por resgatar isso. Tem sido sempre assim de uns tempos pra cá: vou lá, tomo uma cachaça pra me animar, danço, olho, sou paquerado, tem até quem chegue junto, mas nada acontece. Nada aqui dentro. Não que eu pense que vá encontrar o grande amor da minha vida numa pista de dança: sou piegas demais para isso, ainda acho que vai ser com um esbarrão na rua, cheio de papéis ao chão e um olhar desavisado cruzando o outro. Mas bem que uma noite como essa podia ser mais "bonitinha", como a gente vê nos filmes: papo leve e estimulante, abraço sincero, toque de mãos, falta de jeito, sorrisos escapando, beijo bom, aquela coisa toda... Para não precisar falar de trabalho, lembrando com prazer, quando perguntam: "o que você conta de novo?". 1.3.03
Se eu morasse sozinho, certamente seria muito mais fácil tentar perder peso. Mas divido a casa e um tanto da vida com uma psicopata que happened to live for some time na "América" e, para meu deleite e desespero, incorporou vários hábitos alimentares dos ianques: pensa que ela come frutas ou pão com manteiga de manhã? Não, claro que não! O cardápio inclui sucrilhos e panquecas - eventualmente, com uma tentativa não tão bem sucedida de syrup, diga-se. E não me venham dizer que estou exagerando, que lá no Ciarazim de meu Deus a gente come é cuscuz e tapioca quando é pequeno... Mas não para por aí! Minha homemate também não dispensa leite integral ("encorpado, cremoso, de um povo bem nutrido que não podia saber samba crescendo com um leite assim"), hamburger, bacon, honey & mustard sauce, blueberry muffins ("aquelas coisinhas fofinhas com açúcar de confeiteiro, nham"), donuts ("aquilo, sim, é que são donuts!"), peanut butter & jelly sandwiches, cheese coneys ("só quem morou em Cincinatti conhece essa delícia") e, eu jamais poderia deixar de citar, os mundialmente famosos cookies que ela faz - alguns mais chegados meus receberam a receita de presente de Natal. Pizza é outra iguaria sempre muito bem-vinda à casa, por mais que eu me culpe, pensando que deveria estar comendo uma saladinha sem tempero, levinha… mas sou muito facilmente influenciável nesses momentos, me deixo levar pela sedução gastronômica que ela exerce com olhar maroto e covinhas safadas, impossível resisitir aos apelos. E, para piorar, quem disse que esse diabo dispensa cerveja? Aí, lá vou eu "crescendo" a olhos vistos, rumo ao posto de Rei Momo 2004. Ontem, por exemplo, uma noite típica. Chego em casa meio empapuçado dos biscoitos que tinha comido no escritório (eram onze da noite, eu precisava de ATP!), quando alguém sugere: "Vamos fazer milk shake de chocolate?" Eu, coitado, ia dizer o quê? É tentação demais, minha gente! Pois bem. Assim vai ser meu primeiro testemunho quando me internar em um spa de emagrecimento. Sozinho, vale ressaltar, porque a outra é gostosa e boazuda, a despeito dos litros de Coca-Cola (light? jamais!) que toma por dia… (é nisso que dá passar o sábado de carnaval vendo "A vida secreta dos tubarões e arraias" no Discovery…) ~ início ~ |
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