|
31.3.08
WEEK-AFTER Quando vovó faleceu, chorei tanto tanto tanto na hora e até o enterro que, nos dias seguintes, não havia remorso, tristeza, melancolia, nada assim. A dor, parece, foi toda experimentada nas 24 horas entre a morte e a volta do cemitério. Até a saudade era contida, medida, tolerável ao ponto de mal se deixar perceber. E a vida rapidinho entrou no eixo e seguiu seu curso. Agora, é diferente. Tive tempo de elaborar a despedida física de mamãe, de trabalhar espiritualmente a idéia de sua ausência. Pude repetir incansavelmente o quanto a amava, tive a chance de abraçá-la e beijá-la muito - Deus foi gente fina demais, já disse. Mas, talvez por ter chorado pouco, por ter precisado me manter sempre sereno e confiante (pra: 1- fortalecer mamãe a continuar lutando; 2- ignorar a indelicadeza e falta de senso dos urubus; 3- consolar tanta gente que não lidava bem com a situação; 4- cuidar das questões práticas da forma mais objetiva - e produtiva - possível; e 5- não enlouquecer de vez com a pressão e a nebulosidade toda), agora não consigo simplesmente retomar a rotina e acordar na hora de acordar e fazer as refeições nas horas de fazer refeições e trabalhar e dar conta das atividades a que me proponho, como normalmente faria com tanta naturalidade. Não estou conseguindo sequer montar a agenda dos dias. Me perco, esqueço dos compromissos, o tempo passa e eu aqui, bobo, vendo o filme passar sem entender se a comédia é macarrônica ou se o mocinho pega o bandido. E não é por causa de "uma dor lancinante", ou "um estado de consão mental", nada disso. É só pura falta de foco. Volto a Sampa na semana que vem e não tenho passagem. Quero me refugiar em Jeri mas não decido pousada. Tenho que resolver mil coisas e não sei nem qual é a primeira. E olha que eu tô tomando óleo de peixe, chá verde e um complexo vitamínico, tudo em cápsulas (o que me faz sentir um astronauta em preparação para a próxima viagem a Urano), mas nada adianta. (...) Tô correndo aqui. Literalmente. Todo dia. Dizem que libera endorfinas, mas pra isso eu ainda prefiro chocolate. Corro pra cuidar do corpo mesmo, que não tenho mais 18 anos e os cabelos brancos tão infestando. Perdi 7 quilos desde que cheguei aqui - mérito não só dessa correria, vejam bem - e me sinto mais disposto, no geral. No último sábado, aniversário de DEZESSEIS ANOS do meu sobrinho (que nem é o mais velho - virei coroa, G-zuis!), passei a tarde jogando vôlei e saí do sítio moído. Achei que nem fosse levantar da cama no dia seguinte, mas acordei cedo e fui à praia - pra correr na areia mesmo, sem estresse nem sofrimento. Pra melhorar, uma amiga que me conhece há 13 anos ainda vira e me fala que eu tô um "filé", e eis que a pessoa não dorme mais e só quer saber de correr pra ficar mais e mais filé. Já até combinei com Dona Biute, maior corredora que eu conheço (pra você ver como meu ciclo de amizades não é tão grande assim, hehe), que vamos treinar juntos pra tudo quanto for de maratona, corre-corre e aperreio daqui pra frente. Projeto Sunga-de-Lacinho 2008 a todo vapor. Começou a contagem regressiva: 10 dias. Cidade adotada, amigos amados, trabalho puxado, me aguardem. Meio perturbadim, mais magrim, cheim de incertezas... eu tô voltando. 30.3.08
MEDIANAS A pessoa entende que a idade chegou mesmo quando chega em casa às três e meia da madruga, faminto, abre a geladeira, vê um resto de frango assado, um resto de pizza calabresa, pão e frios diversos e, ainda assim, E-S-C-O-L-H-E comer uma fatia de abacaxi. * * * * * Chove a cântaros, bósforos e pícaras na terra do sol. Saí todo gatinho e voltei parecendo um pinto molhado, com os tênis mudernos encharcados de dar dó. As intenções de equilibrar os hormônios, idem. * * * * * Meu celular novíssimo, lindo, estiloso, cheeeeeio de funções que eu nem aprendi a operar, que causava frisson em toda mesa de bar, caiu no chão e quebrou. Se bem lembro, paguei nem a primeira prestação ainda. Tinha perdido uma agenda com mais de 700 contatos no papoco do anterior, e agora quero nem saber de gastar com outro aparelho. Porque nem posso, aliás. Acho que isso é um sinal divino me alertandpo que esse negócio de telefonia móvel não é pra mim. * * * * * Saudade. Hoje me dei conta de que a ficha não caiu mesmo: soltei várias tiradas comentando de mamãe como se ela estivesse viva. É um processo, claro. Quero só ver. * * * * * Volto a Sampa no dia 11 de abril. * * * * * Frase do dia: O orgônio há de abundar. 26.3.08
MAIS UMA DE AMOR Depois do enterro de mamãe, Ana Célia (minha Babá) foi ao Choró-Limão, povoado no interior onde sua família mora. O pai dela, de 89 anos, estava muito ruim, lutando contra um câncer generalizado faz tempo. Ficou lá desde o final de semana, e, com ele tendo aparentemente melhorado na madrugada de ontem, resolveu voltar para a missa de sétimo dia de mamãe, pois queria ler uma homenagem que lhe tinha escrito. Quando Ana Célia entrou em casa, minha tia acabara de desligar o telefone. Uma irmã havia ligado para avisar que o pai dela tinha acabado de morrer. Acabando, tudo. Parece muito. Não sei "muito" o quê - sofrimento? provação? injustiça? Não sei. Só me parece isso: muito. Tanta gente próxima que não vamos mais ver, com quem não teremos a felicidade de estar de novo (presencialmente, pelo menos). A Babá chegou, ouviu, sentou, chorou. Sem acreditar muito. Tomou um banho, almoçou, levei-a à rodoviária. Ela tinha que estar com os seus, foi uma dor grande demais para sua mãe. Que o velho descanse em paz - e que nós descansemos um pouco desse turbilhão todo. À noite, li a mensagem que escreveu para mamãe na missa. Que foi linda, por sinal: simples, cheia de gente querida, cantada maviosamente pela Apá, celebrada com sentimento pelo padre Fernando. E conduzida por mim, como comentarista. Fiz questão, mesmo com a voz titubeando depois da comunhão. Comunguei por mamãe, conversei com Deus e com ela, senti meu corpo todo tremer, mas o amor me manteve sereno. Foi uma cerimônia tocante, disseram. Como ela merecia. Abaixo, o "santinho" distribuído como lembrança. Minha Fatoca. ![]() Pra lembrar que a vida vale a pena se a gente ri. 25.3.08
UM BURACO NO MEIO DO CAMINHO Passa das quatros horas do dito sétimo dia. Acabei de chegar em casa: estava com meu primo, diagramando o livrinho da missa de mais tarde. Que vai acontecer numa igreja perto de casa, celebrada pelo mesmo padre que rezou a cerimônia de corpo presente e cantada por uma amiga muito, muito querida, que me ajudou demais na escolha dos hinos. Vai ser bonito. Não me estendi nas homenagens, pra evitar qualquer intenção ou impressão de melodrama. Quem vai falar mesmo - quer dizer, eu vou estar lá como comentarista, mas vou mais ler o roteiro que propriamente declamar palavras minhas - vai ser a Babá, que preparou uma mensagem tão sentida e sincera que eu mesmo não tive coragem de ver ainda. Quinze anos dividindo um teto não são quinze dias. É quase o quanto eu convivi com mamãe, inda mais considerando que eu não era muito gente até, digamos, saber ler e escrever. Há uma semana que explico às pessoas que estou bem. Sigo confortando meus interlocutores enquanto ouço, invariavelmente, de lá e cá, que sou um herói, que de onde tiro essa força, que só pode ser Deus no coração etc. etc. Etc. Antes do jantar, me ligou uma amiga cuja mãe também enfrenta um dragão, e conversamos por tempo sobre como é difícil, para alguns, solidarizar. Disse eu, organizando o pensamento enquanto elaborava o discurso, que essa experiência de ver doente alguém que a gente ama tanto é avassaladoramente transformadora. Confessei, por exemplo, que enxerguei a mim, no passado, negligenciando a atenção de estar próximo de gente querida em momentos difíceis, apenas porque não reconhecia a importância de um ato mínimo de abnegação e altruísmo. Descuido? Não, falta de cuidado, com a sutil diferença que aí há. Cuidar é bem mais complicado do que parece. Ainda não assimilei o quanto Ora. Só quando já chegava em casa foi que me dei conta do quão emblemática essa história da calçada quebrada era. Claro como água, mas eu demorei para perceber. Aliás, como de hábito. Sou impetuoso, por baixo do auto-controle que ostento - conquistado em anos (vidas, talvez?) de exercício consciente e constante, vale dizer. Custo a assimilar intelectualmente o que, na emoção e no corpo, me sai com irrepresável naturalidade. Mas preciso dessa gnose, preciso, sou sapiens sapiens demais para me furtar a essa reflexão. E por isso estou considerando me refugiar um pouco antes de voltar a Sampa. Tirar uns dias de retiro. Sozinho, comigo, fomentando uma "autodialética" que proporcione um "me pe(n)sar". Pra voltar mais inteiro, pra mim e pros meus. Ou melhor, pra mim e pro outro. Ou não(s). 20.3.08
EPÍLOGO Tentei ensaiar um jeito mais ou menos lírico de começar este post, mas não encontro palavras, talvez porque elas não existam, para expressar o que sinto, o que passa pela minha cabeça ou pelo meu coração. Talvez porque eu seja normalmente tão conciso, tão objetivo, se não no que digo ou escrevo, pelo menos no que penso. TMTH. Too much to handle. Ontem à noite, na troca de turno do hospital, a enfermeira da noite veio fazer a evolução de mamãe. Vendo seu estado (ofegante, olhar perdido) - não, vou me permitir descrever melhor isso. Esta é minha hora de reflexão, de terapia, me perdoem os leitores pelo que não fizer sentido aqui. Mamãe respirava muito curto por trás da máscara. A máscara, mesmo com o elástico frouxo, marcava seu rosto. Seu rosto, por conta da infiltração, estava muito inchado, as órbitas dos olhos pareciam de borracha. Seus olhos, talvez, fossem o que mais nos agoniava. O edema era tal que até os olhos estavam inchados. Não só por fora, mas por dentro mesmo. Acho que só quem já viu uma pessoa com oxigenação deficiente pode imaginar olhos assim, sem vida, opacos, fixos, nunca fechando. Mas assim falo só do olho direito, porque o esquerdo nem abria. Por muitas vezes peguei um lenço de papel para secar seu canal lacrimal, porque ontem sempre brotava água daquela fonte ali. Dor? Saudade? Amor? Ou apenas um reflexo mecânico pro qual eu quisesse um significado mais nobre? Sabe Deus. Enfim, eram olhos de não-vida. E quando eu digo "ofegante", quero dizer que o ar parecia não entrar a fundo, assustado, como parecia não sair direito, reticente. E, quando passava por sua garganta, acho que o vento sibilava nas cordas vocais, e dali saía um ruído tão humano, tão natural que eu mesmo, de acostumado aos sons rebuscados ou sampleados dos meus headphones, não identificava, não reconhecia. Era como se Fatoca gemesse - clamava por socorro? sofria? ou só dormia, sedada? nunca vou saber. Essa era a visão de mamãe nesses últimos dois dias: um olho semimorto sempre aberto, a boca sempre aberta emitindo um barulho pavoroso, os braços inchados ladeando o corpo inerte na cama do leito 106. Mesmo sedada, fiz questão de dizer ao seu ouvido o quanto ela era querida, falando os nomes de todos os visitantes que apareciam e repetindo que eu a amava demais. No começo da noite, veio a enfermeira do novo turno. Ao ver mamãe, me perguntou se éramos religiosos. Ela era, disse eu. Católica. Posso fazer uma oração, perguntou a enfermeira. Claro, respondi, acho que ela gostaria disso. E rezamos juntos, mais minhas duas tias e uma prima que lá estavam. Aurora - o mais lindo nome de enfermeira que eu não podia esperar naquela hora - cantou sua prece, pediu a Deus que confortasse minha mãe e aliviasse suas dores. Um momento tocante, quando finalmente derramei uma primeira lágrima. Meia hora depois, enquanto Aurora enfaixava seu braço para tentar diminuir o inchaço, mamãe cansou de lutar e entregou o espírito. Eu imaginava que manteria a calma quando mamãe morresse. Pois assim foi. Quando digo que ela descansou, é porque acredito mesmo que o alívio ali foi como o de quem finalmente dorme após noites e noites de vigília. Fatoca lutou demais, era uma guerreira incansável, como poucos, e sustentou-se ao limite do razoável. Minha amiga que acompanhou a cirurgia de 24 de novembro me contou que, na ocasião, o médico estimou uma sobrevida de um mês, se tanto, mas minha mãe ainda ficou por mais quase quatro conosco. E nesse tempo, viveu. Teve suas intercorrências, que a doença era escrota, mas aproveitou como pôde: dançou, comeu, jogou baralho, esteve com pessoas queridas. Riu e fez rir, como lhe era de hábito. Sua risada gostosa. Seu jeito simples de nos botar sorrisos na cara. Mamãe era feliz, na essência. Muita gente me falou que tomei a decisão mais acertada voltando a Fortaleza pra cuidar de mamãe. Que foi "muito bonito ter largado tudo pra vir ficar com ela". Me perguntaram se eu estava "ficando direto no hospital" e faziam uma cara meio assustada de aprovação ou de admiração quando eu respondia que sim. Tudo isso sempre me soou estranho, porque nunca me passou pela cabeça na da diferente de estar aqui, agora, com ela o máximo que pudesse. Minha vida está lá, me esperando. Qualquer dor, qualquer sofrimento, todos os meus esforços aqui, nada disso era grande demais quando eu pensava no que mamãe vinha enfrentando. E nunca cogitei não ficar com ela o tempo todo no hospital, nunca achei sacrifício passar uma noite acordado de pé ao lado da cama para ver se a transfusão de sangue corria bem, como nunca pensei diferente de dormir pouco quando precisava acompanhar o sono inquieto dela. Não entendo o que se vê de "bonito" ou "louvável" nisso. Pra mim, ainda era tão pouco. Se fosse possível imaginar que essa doença aconteceria agora, eu teria voltado antes, para conviver com mamãe. Eu queria ter estudado Medicina para combater melhor a doença, queria ser um homem de fé inabalável para acreditar no milagre, queria ter a certeza que mamãe foi em paz. Queria que as coisas tivessem sido diferentes, mas elas foram como foram. Resta manter a serenidade e continuar meu caminho. Espero não ter desapontado mamãe como filho, espero que ela tenha sentido que cumpriu sua missão aqui, porque eu acho que cumpriu. Mamãe espalhou exemplos bons, acredito que não só pra mim, com seu riso franco pra toda hora, sua honestidade, sua dedicação aos que amava. E que a amavam. O sepultamento foi hoje às 13h. Sol a pino para compensar a chuva salvadora dessa noite: era dia de São José, e felizmente choveu, afastando a estiagem neste ano, de acordo com a crença popular. Choveu, o céu chorando conosco. Ou por mim. O velório foi movimentado, e teve muito choro na missa de corpo presente. Eu, que estava lidando com tudo de uma forma absolutamente tranqüila, consolando as pessoas e dividindo minha força com palavras de conforto e fé, desagüei na hora da bênção final. Tentei segurar as lágrimas, mas não consegui. Foi bom chorar, sempre alivia. Meu pai esteve do meu lado o tempo todo, e de novo não agüentei quando ele chorou. Abracei minha Babá, lembrei de algumas cenas, cantei uma música. A embalagem de Fatoca ficou lá, junto com os restos do que um dia foram os corpos de vovó e do meu tio. Agora é resolver as questões práticas, organizar o que precisa ser organizado, tomar algumas decisões e voltar a Sampa. Ana Célia vai ficar morando em casa, não vamos nos perder. Somos família um do outro e continuaremos juntos. Mamãe, de onde quer que esteja, vai nos guiar e proteger. Ela sempre estará conosco. Sempre. 19.3.08
RELATO 31 Mamãe está internada desde a manhã de segunda. Após alguns exames, descobrimos que ela tinha anemia profunda, o que provavelmente ocasionou o inchaço. Ela tomou sangue (duas bolsas e meia, mais plasma, não conseguiu mais) e vem sendo medicada com morfina a cada quatro horas. Mesmo com a máscara de oxigênio, a respiração está fraca e seu coração bate tão rápido que a jugular fica constantemente saltada. Às vezes tenta falar alguma coisa, não sei a que ponto está consciente. Ela luta, não sei se ainda pela vida ou se já pelo descanso, mas sei que ela luta demais, não consigo imaginar o quanto. Na segunda, ela virou pra mim e disse "A mãe é forte", enquanto a enfermeira lhe furava pela quinta vez em busca de uma veia. Com a dificuldade de se lhe encontrar veias, torcemos muito para que não perca este acesso e seja necessária uma dissecção. Ontem o médico conversou longamente comigo, hoje esteve de novo conosco para confortar a Babá. Este é o momento da serenidade: sabemos que todo o possível neste plano foi e está sendo feito. Vamos nos preparando para que ela descanse enfim. Eu estou calmo, por ora. Ana Célia, aparentemente também. Estamos juntos, em família. Hoje um padre veio ungir Fatoca, e rezamos pela saúde de seu corpo, de sua mente e de seu espírito. Deus tem um plano, mesmo que a gente não compreenda, e isso é o que nos conforta. Mamãe é muito amada, recebe muitas visitas, e os telefones não param de tocar. E é por amor que eu peço a Deus que ela descanse. 17.3.08
RELATO 30 Mamãe piorou muito nos últimos dias. Surgiu-lhe um edema no lado direito do rosto: quando ela dorme, levanta com a cara bastante inchada, deformada mesmo, mal a reconhecemos. Mas o pior é que não está conseguindo respirar. Sente-se cansada, ofega, não encontra posição sentada nem deitada, impacienta-se... E cansa. Acho que mamãe cansou da luta. E eu não vejo mais sentido nessa peleja, com ela sofrendo assim. Estamos nos aprontando para irmos ao hospital, ver o onco. Já vou ligar para ele do caminho pedindo que prepare um leito para internação - a situação é tal qu enão sei mesmo se mamãe chega até lá. Estou meio anestesiado. Não sei direito o que pensar. Só queria que ela não sofresse. Tenho ouvido muito que enquanto há esperança, há vida. Eu pergunto: isso é "vida"? 12.3.08
RELATO 29 Por conta da escoliose, mamãe não dorme na cama. Assim, estendemos uma rede na sala, que é o ambiente mais fresco da casa - e o mais movimentado também, já que é passagem para a cozinha e para os quartos. Eu dormia num colchão abaixo da rede, para acompanhá-la sempre que acordasse (ela levanta muitas vezes para ir ao banheiro, sempre meio grogue por causa do sonífero, então precisamos ficar de olho). Na semana passada, por conta das seguidas noites chuvosas que molhavam o chão próximo à rede - tem um jardim de inverno bem ao lado dos armadores -, transferimos Fatoca para um dos quartos que estava desocupado, para evitar escorregões. E lá ela vinha dormindo bem, a noite quase inteira, enquanto eu me estirava na cama ao lado. Só que. Na noite passada, o quarto estava cheio de muriçoca (pernilongo, que aqui tem outro nome), e, se ninguém merece ser devorado vivo por dípteros hematófogos descompassadamente famintos, não seria minha combalida mãe a lhes servir de jantar. Ela veio para a sala, que não havia nuvens e as estrelas brilhavam alto no céu. "Sem problemas", pensei, e ela já dormia feito um anjo enquanto ainda me despedia de uns amigos no msn. Quando resolvi deitar, percebi que a Babá dormia no que seria o meu "colchão da sala", então achei que podia ficar no quarto mesmo, já que, estando a menos de 3 metros de mamãe, possivelmente acordaria se ela precisasse. Pois bem. Não sei se sonhava, não costumo guardar na memória o que sonho. Mas dos pesadelos eu lembro, e o dessa madrugada, real que foi, teve cheiro e som mais do que suficientes para nunca ser esquecido. Eram quase quatro horas quando a Babá me acorda, nitidamente sobressaltada mas tentando fazer-se de calma. "Sua mãe caiu, me ajude aqui a levantá-la". Pulei da cama, botando os óculos na cara de qualquer jeito - antes não os tivesse botado de jeito nenhum. Mamãe estava no canto da sala, toda ensangüentada, o vestido manchado, a cara pingando vermelho, os olhos, perdidos, como se me fitando. Desde que ela adoeceu, sempre visualizei mais ou menos turvamente alguma situação de emergência, em que urgisse socorro, e nessa cena eu me mantinha objetivo, controlado, ágil, eficiente. Como previsto, assim foi: não alarmei com o quadro, levantei mamãe sobre suas pernas, constatei que não havia fraturas nem torções e a conduzi até a cozinha. Umedeci algodão e limpei o sangue viscoso que lhe escorria pelo rosto até o queixo. Muito sangue. Tentei localizar o ferimento e descobri, com a ajuda da Babá, que eram dois: um na testa, maior, e um ponto no alto da cabeça. Muito sangue. Lembrei que mamãe está anticoagulada, o que justificaria a roupa encharcada e o inefável exagero. Ela estava bem, lúcida, calma; eu e a Babá é que disfarçávamos porcamente nosso nervosismo. Que foi tanto a ponto de baixar minha pressão e eu quase desmaiar. Quando senti a vista escurecendo, liguei correndo pra minha prima enferemeira, que mora na casa aqui em cima, para que viesse nos acodir. Aí ficou mamãe de um lado, querendo levantar logo e tomar um banho, e eu do outro, semivivo, com a Babá me enfiando sal pela goela e me abanando. Já está "tudo bem". Os cortes, superficiais, embora em regiões irrigadas, estancaram, e aparentemente não há mais traumas. Antes mesmo de voltar a dormir, mamãe comeu bolachas e tomou chá. Agora há pouco pintava as unhas num tom de vermelho escuro como o outro que a banhou mais cedo. Normalzinha. Liguei para o médico, ele pediu novo hemograma e vai vê-la. A situação está sob controle. Mas fiquei apreensivo. Se agi mecanicamente como queria (e porque necessário), não tardou que eu me deixasse abalar pelo cheiro de sangue e pelos fantasmas (minha avó materna morreu nos meus braços, já contei aqui) e desabasse. Quando não podia. Tenho que me manter firme, tenho que agüentar olhar a morte de frente, tenho que enfrentar meu medo. Mamãe precisa que eu seja mais forte. Fiquei com uma certa raiva de mim, mas entendo que também tenho limitações. Mas vou trabalhar isso. Essa é minha missão agora. (...) O pai da Bruxa (vulgo Babá) está cai-não-cai. Mas vem assim faz muito tempo, então nem assustamos mais. Esperamos que descanse logo, coitado. (...) Há dias minha coluna anda reclamando. Sinto uma dor na região lombar, aguda, que toda noite me exige girar o quadril prum lado e pro outro, estalando tudo quanto há de articulação ali. Antes do almoço fui a um traumatologista amigo para tirar uma radiografia digital, que diagnosticou uma inflamação num ligamento sacroilíaco, de tensão. Somatizei total, mas não é nada muito sério. Aí ele aplicou uma injeção de anestésico, depois outra com antiinflamtório e depois me deu seis comprimidos de analgésico para a dor causada pela injeção. Que tal? Tô aqui descadeirado, andando com dificuldade e gemendo pelos cantos. Mas vamos que vamos. 10.3.08
RELATO 28 De quarta pra cá, a natureza em mamãe piorou. Ela parecia ter resistido bem à seqüência violenta de três sessões de quimio no final da semana passada, mas já no sábado caiu indisposta, sem forças, a garganta inflamada lhe doendo muito, na barriga uma hélice descontrolada querendo escapar. E assim ficou os últimos três dias: deitada na rede, impaciente, reclamando do desconforto se desperta ou dormindo emburrada, de cenho franzido na expressão sofrida. Uma lástima, dilacerante ao coração. Hoje, o pé direito inchou de novo. Do trombo ainda - isso deve vir e voltar de tempo em tempo, até que o corpo se resolva naturalmente. Falei com o médico sobre as queixas, e ele passou remédios - além dos que já havia prescrito para combater os efeitos imediatos da quimio. Agora a rotina tem oito medicamentos, numa ciranda de nove comprimidos e 150 gotas de fármacos miraculosos que roda das seis da manhã à meia-noite. A ingestão via oral também está comprometida, então voltamos à alimentação exclusivamente pela sonda. Que é um saco, imaginemos. Ainda mais para quem gosta(va) tanto de comer, de chegar em toda casa e ir direto às panelas na cozinha atrás de qualquer farofinha, resto de feijão, pegado de carne. Aí ela fica assistindo a gente almoçar como quem vê um espetáculo de que não pode participar. O que é, de fato, e a comida nossa parece que não vai descer porque na goela aperta um nó. De dó. Fico pensando no que pensa ela. Fatoca não é de falar dessas coisas: uma mundana, no melhor que se usa do termo. Mas sente, claro, e deve refletir e conjecturar sobre muitas coisas nesse processo. Não vou aqui especular, que até a minha presunção tem limite. Prefiro dizer do que passa pela minha cabeça. Ou de parte, pelo menos. Tenho medo de morrer sozinho. De não ter quem cuide de mim quando eu estiver velho e/ou moribundo (se lá chegar). Não devo ter filhos, e se tivesse, impossível ter certeza de que poderia contar com eles. Não sei se vou casar, por mais que acredite que ainda vou encontrar um terceiro (e um quarto ou quinto ou sei lá) grande amor da minha vida - mas os amores eternos, chamas que são, cedo ou tarde abrandam, hora esta que é impossível precisar. Sempre pensei na velhice ao lado de amigos, jogando xadrez num calçadão de Copacabana e comentando das beldades juvenis, até o dia de cansar dessa brincadeira e apagar na poltrona de leitura, com uma história de Clarice ou versos shakespearianos sobre a barriga, os óculos ainda na cara. Morrer dormindo, como vovó. Mas aí seria sorte demais, não sei se mereço tanta bonança. Vejo mamãe doente e visualizo a mim mesmo numa penumbra cercada de reticências, um ponto de interrogação em forma de luz entrando por uma janela sem forma nem afeto. Gosto não. (...) Voltando ao plano sensível. Mamãe é uma guerreira incansável. Tem seus momentos de abuso, absolutamente justificados pelo quadro, entendo, mas levanta e vem pra sala. E faz piada. E se auto ironiza. E fala do futuro. Agora no jantar fiquei ouvindo ela e minha tia conversarem sobre a gravidez insurgente que me trouxe, contando o causo cômico da descoberta, discutindo a reprovação geral, lembrando a marra da velha em lutar naquela época contra o preconceito, em reverter as adversidades - que não eram poucas. Uma brava, sempre. Se eu sou um monstro, como adoro dizer, é porque tive a quem puxar. 9.3.08
RELATO 27 (28? 29? 13 fatorial?) Buemba! Buemba! Gente urgente! Bagunçou o bueiro da bocada! Brisa? Balela! Baixou a bruma de Beaufort! Barômetro berrou, e the beautiful bebeu. Bêudim, bêudim. Babando. Bóia? Brinda? Brinco, because. Bravo! to sexo grátis, que só é melhor porque é Manda bolhas e brilho, manda beijo, baby. Bliss. Burp. Bla-bla-bla-whiskas-sachet. Bora mimir que já já tem prova de concurso. Bauhaus, Bálcãs, Belgrado, Belfast, bullshit. Bow-wow, blowjob - blefe? Bolei, hahahaha! (Bless me...) Bye! 5.3.08
RELATO 26 O cerco começa a apertar. Ou a porca retorce seu inquieto rabo. Ou a fera mostra suas assustadoras presas e garras. Ou, ainda, menos metafórico e mais literal, a doença volta a dar as caras, e volta com força: tolos de nós que nos achávamos em período de trégua. Viemos à Santa Casa, de onde ora escrevo para publicar depois, chegando em casa. Era dia de iniciar o segundo ciclo, em princípio mantendo as drogas e dosagens do primeiro – que apresentaram, parecia, bons resultados. Pois bem. Há dois dias mamãe começou a sentir uma dor aguda, esporádica, pouco abaixo do diafragma. A dor vem do nada, como pro nada vai, mas aí está. E sua barriga inchou, está alta e mais firme que antes. Ascite, suspeitei. Ascite, o médico confirmou há instantes. Líquido na cavidade abdominal. O que não é bom, nos frustrando o ímpeto de comemorar o ganho de peso (ela chegou aos 50kg). Precisamos intensificar os esforços: a quimio, agora mais forte, ocorrerá em três dias seguidos (hoje, amanhã, depois), uma vez por mês, em sessões de cerca de duas horas e meia (até então, eram 50 inofensivos minutos). Devemos nos preparar para os efeitos colaterais: queda de cabelo, náusea, vômitos, ferimentos na boca. E seja o que Deus quiser. A quarta-feira amanheceu cinzenta, chovendo fino. O sol saiu, tímido, mas escondeu-se de novo. No hospital, pacientes aos-montoados, rostos desotimistas, funcionários obsole(n)tos e robotizados. Até a enfermeira da manhã, que não conhecíamos, foi muito menos simpática: não me deixou ficar na sala com Fatoca, “Vá esperar lá fora”. Crua, lacônica, amarga, apartou mãe e filho como quem separa joio de trigo. Como quem está habituada a dores maiores e já nem repara, mecânica que tem que ser, objetiva que deve ser. Fria, insensível, como faz parte ao seu ofício. Quando tanto necessitamos de cuidado. Estou digitando em uma igreja. Mais exato, na capela que fica dentro da Santa Casa de Misericórdia (um nome que soa ao mesmo tempo dramático e confortante, penso). Enquanto isso, mamãe dorme com o acesso na veia, o soro e a esperança de milagre pingando da ampola em compasso nervoso. Rezei. Pedi serenidade e força a meu pai do céu e às conexões cósmicas que nos rondam. Senti alguma vibração boa aqui dentro, dentro de mim, como há tempos não sentia. Voltarei a este templo nos dias de quimioterapia, acho. Eis o (misterioso) momento da fé. 3.3.08
PRÓLOGO 2 David Archuleta, American Idol, season 7 You may say that I'm a dreamer, but I know I'm not the only one. (just can't help the thrills...) ~ início ~ |
~ lendo ~ Alê (BGML) Balu (Sim, eu OdeioSopa!) Beth (E-Beth) Camila (Tapetes de Penélope) Clara (The Clara Beauty Journal) Clau (Lettiânia) Djoh (Caminho Dourado) Ematoma (Objetos de desejo) Gabby (Nêga do leite) Guiu (Perto do coração selvagem) Lola (Escreva Lola Escreva) Marie (Je suis Marie) Phelipe (papel pop) Rafaela (Letra e Música) Renata (o livro de areia) Ronaldo (Satyricon) TDUD? (Te dou um dado?) em que quer acreditar. ~ ~ passado ~ agosto-2009 junho-2009 maio-2009 abril-2009 março-2009 agosto-2008 junho-2008 maio-2008 abril-2008 março-2008 fevereiro-2008 janeiro-2008 dezembro-2007 novembro-2007 outubro-2007 setembro-2007 agosto-2007 março-2007 fevereiro-2007 janeiro-2007 dezembro-2006 novembro-2006 outubro-2006 setembro-2006 agosto-2006 julho-2006 junho-2006 maio-2006 abril-2006 março-2006 fevereiro-2006 janeiro-2006 dezembro-2005 novembro-2005 outubro-2005 setembro-2005 agosto-2005 julho-2005 junho-2005 maio-2005 abril-2005 março-2005 fevereiro-2005 janeiro-2005 dezembro-2004 novembro-2004 outubro-2004 setembro-2004 agosto-2004 julho-2004 junho-2004 maio-2004 abril-2004 março-2004 outubro-2003 setembro-2003 junho-2003 maio-2003 abril-2003 março-2003 fevereiro-2003 janeiro-2003 dezembro-2002 novembro-2002 outubro-2002 setembro-2002 agosto-2002 julho-2002 |
||