~ gente ~






31.12.07
 
INTERLÚDIO 1
Estes últimos momentos de 2007 se arrastam, meio pegajosos. O dia foi chato, de dores e choro pela casa. Vou virar a meia-noite com mamãe, esperar que ela durma e, então, ganho a rua. Para encontrar uns amigos, rir um pouco, criar uma energia boa pro começo de ano. Energia essa que há de se estender, aliás.
Vamos brindar à vida, minha gente.
E até 2008!

30.12.07
 
RELATO 9
Mamãe está melhor desde ontem. Mais disposta, menos sonolenta, interagindo conosco na sala e falando no telefone. Passou uns dias apática, então há muito a comemorar. Amanhã fará as tomografias (torácica e abdominal) para que o onco defina os procedimentos da quimio.
Meu tio é que está ruim. Com dificuldade de se alimentar, ontem entrou no soro, mas perde a veia o tempo todo. Mal fala, não se levanta sozinho. Sente dores. Minha tio e meus primos estão em frangalhos. É um aguaceiro danado nesta casa.
Eu não choro. Não consigo. Quando minha avó materna morreu, 15 anos atrás, lembro que chorei tanto que desmaiei. Ela morava comigo e mamãe, cuidou de mim desde bebê. Éramos muito, muito ligados, e ela morreu em casa, nos meus braços. Eu tinha 14 anos e não havia conhecido dor daquele tamanho até então. Chorei quando meus tios a socorreram pro hospital, chorei com a notícia, chorei no velório, chorei no sepultamento, chorei uns dois dias depois. E não chorei mais. De lá pra cá, quase nunca derramo uma lágrima. Chorei terminando meus dois namoros mais longos, chorei vendo meia dúzia de filmes, chorei quando meu tio morreu de câncer nos pulmões, anos atrás, e chorei há dois meses, até secar, com a morte de minha meio-irmã, também vítima dessa doença escrota. Depois disso, chorei quando a cirurgia de mamãe não saiu como queríamos.
Agora, espero alguma hora de chorar mais - que, pelo andar das coisas, deve ser com meu tio - para ver se me sinto mais gente.

(...)
Saí de Fortaleza há 12 anos para morar em São Paulo. Nesse período, vinha pra cá todo ano, de férias. Mas os dias de ócio e lazer são os mais curtos, e as atividades eram fartas, o que escasseava o convívio com minha família. Assim, não havia tempo para as diferenças, ou quaisquer rusgas, e nossa interação era fantasticamente carinhosa - e superficial. A distância tem o dom de transformar um desterrado em herói infalível, príncipe encantado, jóia rara.
Agora, estou de volta, e a convivência é diária. Percebi que, para muitos parentes (bem próximos, inclusive), é como seu ainda tivesse aqueles 18 anos. Inconscientemente, me tratam como um moleque. Não contam comigo, me tomam por irresponsável. É verdade que eu tenho essa cara de 20 anos, conservada no álcool. E que faço graça direto (porque prefiro rir, acredito nessa arma). E que sou afetuoso feito criança: abraço, beijo, faço massagens, deito no colo. Sou assim, sempre fui, não vou deixar de ser por nada. Mas virei homem. Criei meus calos, minhas rugas, meus primeiros cabelos brancos. E todos eles se justificam.
Não me preocupo em provar nada a ninguém. Sei o suficiente de mim, e isso me basta. Mas admito que me incomoda essa sensação de ficar no quarto de brinquedos enquanto os adultos falam sobre assuntos sérios na sala fechada. Porque me recuso a lamentar? Porque não consigo chorar como eles?
Já que as palavras me faltam, me valho das atitudes. Sabedoria também é saber calar.

28.12.07
 
RELATO 8
Porque desabafar é preciso.
Parece uma sucessão de piadas sem graça. Ou um pesadelo, como têm dito desde ontem à boca pequena.
A primeira parte, menos trágica porque já esperada, é a novela dos novos exames. As tomografias não foram autorizadas pelo convênio, já que o plano de mamãe só dá direito a uma tomografia por ano - ou seja, teríamos que aguardar até setembro/2008 caso quiséssemos usufruir do "benefício". Como o SUS inopera, via de regra*, vamos pagar, então. Ligo num laboratório, ligou noutro e em mais outro. Preços diferentes, critérios ambíguos, condições estapafúrdias e prazos que, justificados pelas festas de final de ano, pra gente são impraticáveis. Optei por fazer as tomografias no Hospital do Câncer mesmo, que ainda seria o mais rápido e dos menos caros. O atendente disse que ela poderia fazer o exame no sábado pela manhã, que o valor seria X e que o resultado sairia na segunda-feira. Bom, pensei, vamos lá. Fui hoje de manhã para preencher um tal questionário, carregando mamãe comigo, já que sua presença seria imprescindível para responder às questões. A comédia de erros:
1) o formulário tinha umas 8 perguntas, bem simples, que eu poderia responder tranquilamente sozinho, sem ter que submeter uma paciente com câncer ao desgaste de ir até o hospital;
2) o valor de cada exame não era X, mas Y, 30% maior. "O atendente se equivocou";
3) seria necessário um suporte anestésico, disponível apenas na segunda-feira, pelo valor adicional de quase X;
4) resultado apenas 2 dias úteis após a realização do exame, ou seja: quinta-feira da semana que vem. E o médico gostaria de ter visto isso ainda "nesta semana, se possível"...
De nada adiantou argumentar com a moça uniformizada por trás do balcão que na véspera o atendente havia dado muitas informações erradas e que era um incompetente (tratava-se, vale dizer, do mesmo acéfalo despreparado que, dois dias antes, não soube liberar a autorização para a radiografia). "Ele é novato, senhor, peço desculpas". Eu ficaria bravo se fosse atendido assim no comércio, por um vendedor desestimulado. Mas receber esse tratamento em uma instituição de cuidados médicos, onde o substrato é a vida de pessoas, faz a gente sentir indignação, repulsa e dor. E nem me esforcei em contatar a ouvidoria do hospital, já prevendo o (não-)desenrolar da história. Ainda fui ao escritório central do convênio para tentar negociar alguma coisa, mas, que surpresa, não obtive sucesso.
Pelo menos, mamãe fará as tomografias na segunda, pegaremos os exames na quinta, e então o médico poderá dar o melhor encaminhamento.
Vamos à parte dois.

(...)
Meu tio, o irmão mais velho de mamãe, piora dia a dia. Está bem fraco, com o abdome bastante dilatado. Tem os pés inchados, as pernas os braços muito magros, fala com dificuldade e passa praticamente todo o tempo deitado ou no banheiro, tentando fazer suas necessidades. É uma visão brutal, se o comparamos à imagem forte de outros tempos não distantes. Minha tia, coitada, chora muito, se acaba aos poucos, acompanhando esse definhar. Ela tem medo de ficar sozinha, além de tudo. E se entrega o quanto pode nos cuidados com ele, que são tantos. Meu tio toma muitos remédios, várias vezes por dia, e a rotina de alimentação também exige demais. Claro que me preocupo com mamãe, mas a situação do meu tio é FODA. Sofremos todos, em família, sem termos o que fazer.
Mas isso não é tudo.

(...)
Um outro irmão de mamãe e do meu tio mora aqui perto. Veio embora de São Paulo com a família, mas separou-se da esposa, e os filhos o abandonaram. Ele vive só, sua renda é meio incerta (uns aluguéis de imóveis precários, sei nem se lhe pagam direito). Mas é um homem bom, amigo dedicado, visita os irmãos doentes quase todo dia porque os ama verdadeiramente.
Pois bem. Esse tio, que chamaremos Boy, reclama de dores há alguns meses. Minha prima, profissional da área de saúde, sempre lhe pedia que trouxesse os exames que vinha fazendo, para que ela desse uma olhada. Ontem, finalmente, ele chegou aqui com uma biópsia, realizada em julho. Julho, quase seis meses atrás. Lendo o diagnóstico, minha prima me chamou fora da casa, já tremendo: ele tem um linfoma, não sabemos em que grau. Mas o exame é de julho, repito, quase seis meses atrás. E hoje esse tio já tem um trapézio atrofiado, um caroço grande no pescoço e não consegue levantar os braços. Ligamos para o oncologista que acompanha meu outro tio, o irmão mais velho, e ele conseguiu um atendimento no Hospital Geral de Fortaleza, pra semana que vem. O Boy não tem plano de saúde nem ninguém que o acompanhe. Aqui, já estamos sobrecarregados cuidando de mamãe e do meu tio. Ligamos para os outros irmãos, talvez até o levem para São Paulo, onde há mais gente disponível. Deus ajude.

O fato é que a coisa agora ficou ainda mais surreal. São três os irmãos doentes, todos com câncer, todos em grau avançado, todos sofrendo com dores. Um horror. Desde ontem venho me repetindo uns mantras: "Deus sabe o que faz", "Deus tem um plano que não nos cabe conhecer ou entender, mas aceitar", "Existe um objetivo em tudo isso, um aprendizado necessário, uma conquista importante". Mas é difícil focar na racionalidade, manter qualquer distanciamento quando tudo é tão presente. E intenso.
Ainda tenho ânimo, mas sinto o cansaço se abatendo sobre todo mundo ao meu redor. E não consigo encontrar palavras de estímulo o tempo todo. A minha eloqüência falha quando eu mais preciso dela. Rezo, corro com as questões práticas, dou todo o afeto que posso. E meus amigos são uma fonte de energia quase ingesgotável - o tempo todo recebo mensagens de força. Obrigado, obrigado, obrigado. Essa hora é de solidariedade mesmo.


* O SUS inopera. Talvez haja bons exemplos, e eu queria muito ouvir relatos de alguns deles. A irmã da minha babá veio do interior há 3 dias, para uma cirurgia já remarcada três vezes. Com hipertireoidismo, já são seis os nódulos que precisam ser retirados, e ontem aconteceu de o médico faltar. Pela quarta vez. Revoltada, voltou ao hospital (público, sustentado pelos impostos que pagamos) e teve de se contentar com a nova data agendada: 03 de maio de 2008. Mais cinco meses de espera, sem possibilidade de reclamação ou negociação. E a chance, já bem validada pelo histórico, de o médico não comparecer de novo. E ela que se lasque, não é? Quem mandou ser pobre? Meu Deus, meu Deus.

27.12.07
 
RELATO 7
Então foi Natal. O que era pra ser uma celebração de vida concretizou-se como um jantar tão farto quanto sem gosto na noite de véspera. Juntamos o núcleo duro da família, mas meu tio na rede e mamãe na cadeira de balanço, no canto da sala, estavam muito cansados e sem disposição, o que minava nossos esforços de animar a festa. A troca de presentes foi antecipada para que eles pudessem se recolher logo, e Papai Noel, neste carregado final de 2007, viu menos brilho numa casa de gente tão feliz noutros tempos.
No dia 25, já nem lembro. Mas acho que fiquei em casa o dia todo, cuidando de mamãe. Recebemos muitas visitas todo dia, o que nem sempre é bom, porque eles se cansam. As pessoas aqui (amigos, mas principalmente os parentes) sentem-se à vontade para aparecer a qualquer momento, sem aviso prévio, e muitas vezes acontece de chegarem quando eles dormem, ou nas refeições, ou bem quando alguém chora num canto. Toca o interfone e me sobe à garganta uma vontade de dizer "Volte depois, mas ligue antes, por favor", mas o que eu encaro como um pedido de gentileza seria invariavelmente visto como grosseria e viraria imediato motivo de comentários ainda mais indesejados que os mais freqüentes, que tratam de prazos e "fatalidades". Uma prima que veio ontem encontrou meu tio dormindo e disse "Vou voltar depois, porque quero vê-lo vivo ainda". Eu tinha saído para comprar umas coisas no supermercado, mas se lá estivesse teria respondido polidamente um "A gente ainda tem esperança, Fulana, então por favor não fale assim na frente da minha tia", querendo mesmo mandar algo como "Suma daqui e não volte nunca, seu abutre dos infernos!". Mas eu sou RP e não desisto nunca.
Ontem também foi dia de visitar o oncologista novo que vai acompanhar mamãe no atendimento pelo SUS. Nós tínhamos ouvido maravilhas sobre o Hospital do Câncer, e, de fato, o prédio anexo, onde houve a consulta, é lindo e europeu. Mas o vizinho, que parece ser a sede, é precário, mal projetado, com rampas íngremes e portas estreitas que dificultaram a passagem da cadeira de rodas que usei para transportar mamãe até a sala de Raios X. O ar-condicionado mal regulado quase nos causou - a ambos - uma hipotermia. E o atendente, quase simpático, era um despreparado. Todas as loas, então, ao médico. Todas. Ele perguntou tudo, olhou todos os laudos, examinou, pediu mais exames, nos confortou, me deu seu número celular. Há de ser mais um anjo que nos acompanha nessa jornada.
Hoje estou brigando com o plano de saúde para descobrir se mamãe tem direito a uma nova tomografia, sendo que fez uma há menos de dois meses. É que a doença tem evoluido rápido (ela perdeu 19 quilos nesses 3 meses), e é preciso certificar-se de como o quadro está agora para conduzir mais adequadamente a quimioterapia.
A luta continua.

P.S.: O Natal não foi tão penoso, afinal. Estávamos juntos em família, e tentei fazer as pessoas agradecerem por isso. Depois de lá, fui a um get-together animadíssimo na casa da Ana, onde eu e a eterna roomate fizemos a festa! Há, inclusive, vídeos imperdíveis das performances dos BBB ("Bailarinos Bêbados Barbotosos"), que eventualmente serão postados no Iutubi. Ou não, para preservar alguma dignidade às criaturas...

24.12.07
 
RELATO 6
Esse domingo foi um dia de luta. Dormi até mais tarde (o que quer dizer 08:30h, um bálsamo para quem tem levantado às 06h todo dia) para recobrar as forças. Alimentei mamãe enquanto minha babá foi até em casa para fazer uma faxina geral. Arrumei a casa por aqui (lavei louça, varri, essas coisas) e organizei minhas roupas, ainda meio acomodadas nas malas. Depois do almoço, acompanhei outra tia, irmã de mamãe, ao hospital: meu tio, esposo dela, tem diabetes, seus dedos do pé direito estão gangrenando, e provavelmente será preciso amputar o pé. Então foi-se internar hoje, num hospital público, já que não tem plano de saúde. Fiquei consternado com aquela realidade: mamãe fez a cirurgia num hospital excelente aqui, particular, com uma infra-estrutura ótima; minha irmã, quando precisava, ficava no Sírio em SP, que é praticamente um hotel. Já meu tio, coitado, ficou numa enfermaria com mais dois doentes, comendo pão sem recheio e tomando refresco de maracujá. Ele é diabético, faz hemodiálise, tem úlceras brabas e perdeu a visão. Uma vidinha difícil, para não dizer miserável ou escrota. E chorava sem parar, com medo porque ia perder o pé (ou desgosto, ou frustração, ou raiva, sei lá). Mas a cirurgia ficou para amanhã.
Em casa, o chororô era outro: minha tia, esposa do tio doente, desabou. Ela se deu conta de que meu tio morre um pouco a cada dia: já mal tem força para levantar da rede, não quer ver ninguém, está desabonado de si. E minha tia sofre por antecipar a ausência do companheiro de tantos anos e por pensar em como será sua vida sem ele, solitária, sem um par. É triste demais vê-la assim: os médicos não fazem nada, não tentam qualquer tratamento, e ela se deu conta de que essa inércia significa a impossibilidade de cura, de reversão do quadro. Ou mesmo de estabilização. E ver meu tio piorando num caminho de mão única é realmente angustiante. Enfim, ela chorou muito, o que, por um lado, lhe lavou a alma, mas, por outro, nos machucou fundo. Estamos inoperantes, e ter as mãos atadas nessa hora faz desejar um sumir, um desintegrar-se. Humpf.
Amanhã (digo, depois que eu acordar) é véspera de Natal, dia de embrulhar presentes, comer peru e embriagar-se de bolhinhas. Amanhã é um novo dia, de celebrar a vida e a redenção. So, let's.

22.12.07
 
RELATO 5
Life foes on.
Ontem saí "pra balada" com minha prima de 17 anos: comemoração por ela ter passado no vestibular, eu havia prometido. Fomos à principal casa noturna de Fortaleza, que, descobri, é na verdade um imenso complexo de lazer, com 3 palcos para shows, bandas tocando ao vivo, 3 boates de estilos completamente diferentes, um restaurante metido a besta e muita, muita gente jovem, mais ou menos bonita e no cio. O ar morno dos ambientes abertos, encharcado de feromônios, cheirava a álcool e perfumes doces de lolitas muito maquiadas e seminuas. Nós preferimos o friozinho da boate mais low profile, que tocava flashback, e dançamos até as 4 da manhã. Uma noite de espairecer, deliciosa e necessária.
Hoje mamãe reclamava de dores no abdômem. Gases, achávamos, que os remédios aparentemente não vinham combatendo a contento. Experimentamos diluir um Tylenol na água da sonda, e o resultado foi ótimo: o desconforto diminuiu, e ela ficou bem mais disposta.
Aproveitei a melhora e fui ao North Shopping fazer compras de Natal. Só quem é OB* em Fortaleza entende a magnitude do erro que é ir ao North Shopping na véspera do Natal. A Biute, carinhosamente, chama aquilo de desastre arquitetônico, diz que eles inventaram a tetradimensionalidade já na primeira reforma de ampliação - e já houve mais umas cinco desde então, imagine-se como está hoje. Pois bem, minha tarde foi assim: burguês como eu só, me engalfinhando n'O Boticário para garantir os últimos sabonetes de hortelã, estapeando 16 elementos-Barra-Pesada na fila das Lojas Americanas para comprar um telefone sem fio, pelejando para explicar à vendedora que não, eu não queria aquelas bijoux bregas nem pelo precinho ótimo que ela oferecia nem pelo amor de Nossa Senhora do Relâmpago Elétrico. Eu tinha esquecido porque há anos não dava presente pra ninguém no Natal: era para não ter que enfrentar aquele mar de psicóticos consumistas e suas mil sacolas inconvenientes, trombando violentamente contra as minhas mil sacolas inconvenientes penduradas em braços vermelhos prestes a rasgar por conta do peso. Era pra não gastar uma quantia indecente de dinheiro e ainda faltarem as "lembrancinhas" dos 17 sobrinhos - que invariavelmente custariam outra quantia indecente, se eu não tivesse desistido desse projeto e aceitado minha condição de tio-mais-divertido-e-mais-pão-duro. Enfim, voltei da expedição ao shopping com a sensação de que fui possuído por um encosto qualquer (o segundo no mês, depois de Glenn) que me tirou o juízo - e me garfou metade do décimo terceiro.
Agora, volto pra casa da minha tia, onde estamos ficando. Hora de alimentar mamãe, para que ela fique fortinha e possa começar a quimio nessa semana. E vou dormir cedo, que amanhã tenho um bocado de trabalho me esperando.
Acho que nunca vivi um final de ano tão atribulado.

* OB é uma denominação genérica para todos os moradores de Outros Bairros que não a Aldeota, a megalópole que abrange cerca de 85% do território fortalezense (o polígono irregular limitado mais ou menos pela Praia do Futuro, as Seis Bocas, o Bairro de Fátima e o Centro Cultural Dragão do Mar).

20.12.07
 
RELATO 4
Hoje peguei o encaminhamento para o ICC, via SUS. Mamãe está mais animada, alimentando-se com mais facilidade e tomando um chá de ervas dito milagroso, receita que veio do Maranhão para meu tio. Nessas horas, toda promessa é uma aposta.
Fui à praia, correr um pouco e tomar sol. Fico a maior parte do tempo dentro de casa, com mamãe. Ela se alimenta a cada 3 horas, mas os preparativos e duração de cada "refeição" tomam hora e meia, o que deixa pouco tempo livre para organizar outras coisas. Nunca fui tão freqüente às farmácias, por exemplo. E é muito frustrante ver como, no geral, os comerciários aqui são tão despreparados de tudo, mas principalmente no trato com os clientes. No começo, essa percepção é sempre meio folclórica, de tanta piada que se tira das experiências com atendentes e vendedores. Depois, as piadas perdem a graça e vem a irritação, natural. Agora, acho que sinto tristeza, mesmo, de constatar diariamente esse atraso de civilidade, que antes eu tomava por impressão. Que é patente, por mais que haja a cordialidade - às vezes. E por mais que haja outros exemplos muito pontuais do contrário.
No mais, a vida segue. Amanhã vamos falar com os médicos do ICC, espero que a quimio comece após o Natal. Planejamos um amigo secreto em família, para que a celebração do dia 24 seja o mais feliz possível. É do que a gente mais precisa agora: energia positiva.

P.S.: De manhã, recebi uma notícia ruim: faleceu o avô do Cabeção. Era velhinho, 89 anos, mas a gente nunca está preparado. Puxa.

P.P.S.: O aniversário é dele, mas o presente foi meu. Nem sei agradecer. Você é incrível. Mas disso eu já sabia.

18.12.07
 
RELATO 3
Ontem não tive como escrever: fiquei o dia inteiro pra cima e pra baixo, estava exausto à noite. Logo cedo fui buscar a requisição de um hemograma para mamãe começar a quimio. Paguei contas dela, fiz compras no supermercado, tentei passar na seguradora, mas não rolou - muita fila para o atendimento, e eu tinha que voltar pra casa porque iria com meu tio (irmão mais velho de mamãe) ao médico. Ele também tem um tumor (fígado e pâncreas), e as coisas se lhe dificultam dia a dia. O onco aumentou a dosagem da medicação para dor e receitou um suplemento alimentar pra ele. De lá, voltei à seguradora para checar quanto às coberturas: nenhuma surpresa, o plano não dá direito à quimio nem ao implante do cateter. A única solução seria mudar de "produto" (é uma empresa, eu sabia que seria assim): além de pagar mais de R$ 1.000,00 de diferença mensalmente, teríamos que esperar o prazo de carência de um semestre para utilizar os novos benefícios. Como se pudéssemos esperar tudo isso. Minha mãe, cliente deles há cerca de 30 anos, nessa hora é um código de registro, um dado estatístico. E falo isso com duplo pesar no coração, porque me dói, como filho, ao vê-la ser tratada assim, e me dói como profissional porque várias vezes tenho que adotar a mesma postura, matemática e insensível, de recusa. Foi estarrecedor sentir-me coitado e escroto ao mesmo tempo. Voltei a pé pra casa, pensando na vida. Caminhei por uma hora e meia, fugindo do rush e dos ônibus lotados.
Hoje o dia começou com mamãe e titio fazendo exames. Depois, fomos rever a dieta dela com a nutricionista, que passou novos suplementos. Me incomodaram tantas menções aos preços ("depende das 'pernas' de vocês"; "são opções mais dispendiosas"), mesmo eu repetindo que precisava do que proporcionasse melhores resultados. Sei que ela fazia seu trabalho ao alertar, como sei que ali são mais freqüentes pacientes não dispostos a gastar com isso, mas, poxa, eu deixei claro que não mediria esforços para que mamãe tivesse o melhor suporte nutricional posível... Enfim, saímos de lá com a recomendação de uso de dois produtos - que se mostraram dificílimos de conseguir, pelo menos em Fortaleza e de imediato. Liguei para mais de 15 farmácias e lojas especializadas até encontrar o que foi receitado. Passei a tarde nessa função, procurando também o remédio para meu tio, outra pedra filosofal. Agora à noite, mamãe não aceitou bem o novo suplemento, mas atribuímos a dificuldade aos gases acumulados. Conversei com o gastro sobre essas cólicas e sobre a impossibilidade de contar com a seguradora e o encaminhamento para a quimio via SUS. Ele me confortou, dizendo que o ICC é um centro de excelência no tratamento de pacientes com câncer, bastante humanizado - o que só confirmou outros depoimentos com ótimas referências que me deram.
Amanhã vou conversar com o onco e dar seguimento no implante do cateter, no ICC mesmo. E vamos enfrentar esse touro: ele é brabo, mas nós somos fortes.

P.S.: Sobre as obrigações da seguradora quanto às coberturas, também amanhã vou levantar o contrato para checar isso melhor. Vou, sim, procurar orientação jurídica, mas não posso esperar o desenrolar dessa pendenga. Vou tocando.

16.12.07
 
RELATO 2
Hoje decidi que vou, sim, registrar esse momento de vida no blog. A idéia surgiu ontem, depois de mandar o e-mail abaixo pro Guiu. É um espaço que me permite organizar o pensamento, e assim posso manter um histórico para os amigos acompanharem sem que eu tenha que repetir infindamente o mesmo relato, as mesmas respostas, e ainda evito encher de e-mails delicados quem não esté pedindo por eles.
O domingo começou bem: depois de uma noite bem dormida, mamãe amanheceu animada, mais disposta, brincando. Ao longo do dia, a vivacidade foi esmorecendo. Recebemos algumas visitas, ela se cansou. Desde ontem reclama de uma sensação desconfortável de saciedade, então eliminamos uma das "refeições". Não adianta forçar, porque ela põe pra fora. E sofre muito quando vomita, arrota, espirra. Essas fisiologias que nos saem com mais ou menos naturalidade e freqüência, e que agora, como se eu as visse em câmera lenta causando dor à minha mãe, me parecem violências naturais ao corpo. Ela quer ficar deitada tanto quanto pode, mas eu lhe peço para sentar, caminhar um pouco. Para ativar a circulação, resgatar o ânimo, liberar os gases que tanto a incomodam.
O plano de saúde não cobre a quimioterapia. Nem os procedimentos de colocação da sonda e do cateter. Amanhã vou lá, tentar negociar isso. Dia burocrático, e ela fará um novo hemograma para checar a contagem de leucócitos.
Meu tio penou hoje. Com o abdome mais rotundo, não conseguiu almoçar e chorou. De partir o coração, ver um homem tão cheio de vida sofrendo assim. Seus pés estão inchados, e a pele parece amarelar-se. Medo no ar. Um horror.
Mas amanhã é um novo dia.

15.12.07
 
RELATO 1
Meu vôo atrasou um pouco, mas cheguei bem, depois de alguma turbulência daquelas que nos fazem tremer duas vezes. Em casa, vi minha mãe mais fraca, mas animando-se comigo aqui. Ela se alimenta a cada 3 horas, pela sonda nasogástrica, de um suplemento à base de soja, hipossódico e sem sacarose, com sabor adocicado de baunilha - pelo cheiro, deve ser bem enjoento. Depois toma 20 ml de água, também pela sonda. Urina muito, reclama de gases e cólicas. Fica deitada na maior parte do tempo, e está cansada disso. Também quer voltar logo pra casa dela, mas um vizinho está reformando e trocando as telhas, então faz um poeirão danado, impossível de conviver. Assim, ficamos na minha tia por mais um tempo (o que, confesso, prefiro, pelas tantas conveniências).
Conversei com a onco, que me falou sobre o tratamento quimioterápico. Na segunda-feira, mamãe fará novo exame de sangue, para depois colocar o cateter e iniciar uma série de dois ciclos, após os quais será feita uma avaliação comparativa. O plano de saúde não cobre esses procedimentos, então vou estudar alguma manobra legal, se houver, para que ela possa fazer as sessões no hospital que queremos. Se não encontrarmos um jeito, ela fará pelo SUS, que já nos recomendaram bem. E vamos vendo.
Meu tio é que pena mais. Parece mais disposto, no geral, do que mamãe, mas tem o abdome distendido e os pés inchados. Urina com dificuldade, às vezes com um pouco de sangue, e as fezes lhe saem bem escuras. Minha tia, nervosa. O resto de nós, muito apreensivos.
São tempos de alerta. Dormimos pouco, cuidamos muito. Sinto que minha presença aqui era realmente imprescindível. Tenho ajudado com as coisas todas na casa, com os cuidados dos dois, com o estado emocional da minha tia. Nessa hora, ter um homem jovem e forte (veja bem, na medida em que posso me dizer forte, fisicamente) por perto faz bastante diferença. E me sinto emocional e espiritualmente preparado para essa jornada.




~ Cada um escolhe a verdade
em que quer acreditar.
~