~ gente ~






30.9.07
 
AMUSED
Quatro da manhã, de volta. Foi uma noite como sempre, de videoclipes e olhares perdidos. O radar já está ligado? Ele nunca desliga, respondo - ou quase nunca. Quase nunca desliga, como quase nunca encontra. E, se encontra, quase nunca alerta. E, se alerta, de pouco adianta, que eu não me movo.
Everybody is looking for something. Something. Mas não sei o que procuro. Covinhas emoldurando uma boca de matreiros (sorri)dentes me encantam - eu continuo me apaixonando em sete segundos. Passinhos de uma dança desengonçada me encantam - eu sambo conforme a música, mas os ritmos não casam. Recados bem escritos em guardanapos dobrados às pressas me encantam - essa tática conheço bem, sei inclusive da sua fragilidade.
E tomo cerveja, cerveja, água, mais cerveja, mais água. Cuido para não me embriagar, quero lucidez. De tudo. Some of them want to use you, então eu me protejo. Até demais. Tanto que me encerro. Desperdício. De mim, dos outros, do radar, do olhar, do querer. Desperdício de tempo. E de chances. Mas que chances?, penso eu, com sono e com fome. Não sei das chances, mas busco referências na memória de amores passados. Sweet dreams are made of this.
Pardos, à noite, os gatos. Parcos, também (aqui me repito, mas tem nada não - ainda cabe, ainda é). E eu? Eu sou a Esfinge. Eu não jogo as tranças. Eu viajo o mundo e os sete mares: navego num barco de papel, enfrentando mar revolto, tempestades inóspitas, sereias malinas, dia pós dia, buscando terra firme para aportar.
Não vou construir um campo de beisebol por conta de elogios sedosos e promessas frívolas. Não quero explosão nem quintessência.
I just wanna be amused.

23.9.07
 
EM BUSCA DO SONO PERDIDO
Depois da juba tosada e das garras aparadas, aceitei que a moça, tão solícita, afável, me apertasse e esticasse e entortasse para botar as coisas no lugar. Se mente e espírito andam sorrindo felizes, não posso dizer o mesmo desta combalida carcaça.
Fiz as contas: há exatas 50 noites não durmo o suficiente para recarregar a bateria. Férias, noitadas, "diadas", trabalho, amigos, internet: muitos motivos, muitas razões obliterando a razão, e fui (vim) deixando pra depois, exigindo um pouco mais, abusando de leve, esgotando as parcas forças até a atual quase falência. Já não tenho 20 e poucos anos, e agora percebo o quanto preciso de me recolher cedo e desligar, mas desligar mesmo, por seis, sete, oito horas.
Assim foi que pedi à amiga para voltarmos cedo do aniversário, que o cansaço me arroubava, e amanhã muito trabalho me espera. Há poucos metros de casa, avistei uma silhueta familiar, muito familiar. Um alerta me varreu, um instinto de proteção, talvez coisa de irmão mais velho, mesmo sendo eu mais novo. Achei por bem parar e ver se tudo ia bem. Não ia. Nem para o um nem para o outro, que lá também estava.
A ventura terminou no bar hemérito ("boteco honorável", "bodega horrorosa", "benfazejo hospício" - epítetos não lhe faltam), entre diálogos improváveis, batatas fritas cheias de sal e Coca-Cola normal. Meti os manos num táxi e voltei finalmente para o apê, o quarto, a cama, com a sensação algo benemérita, algo revigorante, certamente muito heróica (assim eu senti, pelo menos) de ter salvo aqueles dois [amados] perdidos numa noite suja.
E, às 05:20h do domingo, de novo deito com as batidas inclementes do relógio me acusando.

18.9.07
 
DESCON VERSO
Há nove dias desde 09/09. São quase três da manhã, e em poucas horas embarco para mais uma viagem, a nona nesse ano. Cabalismos de lado, está claro que esse tempo de 30 anos completos tem mexido, se não tanto com meu juízo, muito com meus juízos. E talvez ainda seja cedo (com o tempo [conto o tempo], a noção de "cedo" me parece menos e menos útil - quando é cedo? existe tarde? qual é o tempo de maturação das coisas, de cada coisa, de todas elas? nada, que seja tudo cru. sempre), talvez ainda esteja cedo para esperar que algumas respostas tivessem simplesmente aparecido do nada (tudo? sempre?). Vou pensando, despensando, desconvexo das idéias, em-mim-mesmando-me em busca de certezas cruas - para invariavelmente encontrar dúvidas enlatadas.
A euforia do aniversário arrefeceu, me fazendo lembrar de um certo seqüestro romântico de anos atrás (peço perdão pela digressão: é que a gente fugiu para ver a lua no mar, e foi lindo): ouvíamos Buxtehude e discutíamos sobre como a alegria é um estado transitório, suspensivo e falso de alienação, enquanto a dor e a privação permitiriam o verdadeiro crescimento espiritual, a partir da reflexão. Papo-cabeça pós-foda. Conversê desses que reverberam na cachola de vez em quando. Pra me deixar desconexo, como se já não o fosse o bastante por mim só. Então. Penso se me alieno voluntariamente em favor de um sorriso fácil e despretensioso na cara, essa indumentária que adoro indumentar, ou se a filosofia não me cabe e pronto - quem precisa de saber? eu preciso é de amor. Mas faz bem, esse pensar (ou penar?).
Se fosse de escolher uma palavra para hoje, eu diria: descomplexo. Queria mais linhas retas, menos ângulos e focos. Queria acreditar numa cartilha, só um pouquinho, só por dois dias de férias, para desembaçar o céu dos horizontes. Mas nas férias o céu fica mais turvo ainda, porque sobra tempo para pensar. E escolher palavras. E explorar ângulos, focos, limites. Ardilosa ilusão de liberdade: é aí que a gente se enreda mais, nesse emaranhado de possibilidades que nos envolve, que abraçamos sofregamente enquanto nos perdemos em caminhos que não sabemos trilhar. Eu queria, assim, um desamplexo.
(se pareço desconversar em tangentes, é esse o meu primo jeito de dizer das pungências.)

8.9.07
 
QUEM É O GOSTOSÃO DAQUI?
Já já chegam os Inta.
E pra trilha sonora do dia, eu respondo:
- Sou eu, sou eu, sou eu!

(Nas picapes, Aviões do Forró. Muito, muito apropriado.)

3.9.07
 
O TEMA É: MINHAS FÉRIAS
Desde bem pequeno eu gostava das narrações. Nem ler sabia (olhe que aprendi cedo) e já ficava no pé de mamãe pra que ela me contasse - e repetisse quantas vezes necessário fosse até que eu decorasse palavra por palavra, coitada - dos desenhos nas páginas dos tantos gibis que papai me comprava com gosto. E fui me afeiçoando das histórias, e fui captando sua estrutura e entendendo uns seus meandros, e fui encorpando (e, no processo, incorporando) aqueles tais elementos tão primorosamente ensinados primeiro pela professorinha e depois pelo catedrático na matéria redação: personagens, tempo, espaço, factum, enredo, conflito, clímax. Adolescente feito, caí de amores por tramas e dramas, e dessa queda pra cima - não é assim todo amor? -, felizmente, nunca me recuperei.
Então assim é: eu gosto de contar. Se tiver platéia, puxo a cadeira, puxo assunto e em cinco minutos um chiste leva a outro, e depois a outro, que ligeirinho lá vou eu relatando causos e causos dos últimos dez, doze anos. Não guardo detalhes (datas, ditos, essas miudezas de enfeitar que fazem a tal diferença) como a Biute ou o Cabeção-meu-irmão, mas costumo agradar na função de menestrel: "showman", dizem uns; "exibido", prefiro eu, que sou brasileiro e sincero.
Talvez seja difícil acreditar se eu disser que meu desafio maior ao contar uma história - escrevendo, principalmente - é a minha capacidade de síntese. Caso não tenha ficado absolutamente óbvio a esta altura, posso ser irritantemente prolixo quando quero - e com freqüência quero, para desespero de alguns. Mas me fascina, por exemplo, sumarizar uma noite escaldante de coito não premeditado, nascido da feliz embriaguez dividida com amigos e morto em brancos e úmidos lençóis, com um único e suficiente vocábulo, digitado a mãos ainda trêmulas, um sorriso escapando pelos cantos da boca: orgônio. Acho sublime, assim.
Pois bem. Deitado o verbo, e considerando o adiantado da hora e a demanda do sono, justifico: há dias venho ensaiando registrar aqui o relato das férias, uns trechos mais interessantes pelo menos, e a coisa não sai. Pensei que não seria justo expor (de novo) certas intimidades, por não serem exclusivas minhas, quanto mais nesse momento em que "discrição" parece um conceito tão sedutor.
Assim, deixo a resenha pra lá. Vou tratar, oportunamente, das importantes emoções que eu vivi, lembrando o Rei. Mas, se calhar, até conto uma indecenciazinha ou outra pra não perder o costume (e os leitores curiosos e obscenos)...




~ Cada um escolhe a verdade
em que quer acreditar.
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