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29.2.08
RELATO 25 Na segunda-feira levamos os exames ao onco: tudo lindo. A incontinência - que diminuiu sensivelmente, diga-se - é possivelmente decorrente a hidronefrose mesmo, mas o que importa é que a função renal se mantém. O derrame pleural, melhor notícia, parece ter estabilizado com a quimioterapia: em 21/01, foi identificado um aumento considerável no volume de líquido no período de duas semanas, mas a última radiografia mostrou pouca ou nenhuma alteração após um mês, o que, a essa altura, é muito positivo. Mamãe já não recorre à cadeira de rodas quando vamos a hospitais e ganhou peso: quase SEIS quilos em cerca de 50 dias. Com essa melhora, o médico suspendeu o remédio para dor e diminuiu o da náusea, que dá uma tremedeira como efeito colateral, e assim a rotina de medicação aliviou um bocado. Ontem Fatoca deveria ter iniciado o segundo ciclo de quimio, mas suspeitamos de uma gripe, então o médico preferiu esperar mais uma semana, já que ela está bem. Assim, aproveitamos para visitar o gastrocirurgião que diagnosticou os tumores (e que virou nosso benfeitor querido) e levar-lhe um presente, uma agenda metida a chique que mamãe escolheu. Quando o doutor nos atendeu, emocionou-se ao vê-la sorridente, maquiada e tão mais disposta. Não disse assim, mas estava clara sua surpresa ao vê-la, antes de "bem", viva. Foi ele quem abriu mamãe e primeiro viu a extensão da lesão. Ficou abalado a ponto de não conseguir me dar a notícia, pedindo para um amigo meu (que estava no centro cirúrgico e acompanhou o procedimento) conversar comigo. É um cara muito humano, além de profissional ímpar. Abraçou mamãe efusivamente e nos parabenizou pela perseverança e pelas vitórias. Saímos do consultório, todos, revigorados. E, assim, seguimos. Vou empurrando comida na velha até ela quase me xingar, mas a tática tem funcionado. O que parecia gripe na verdade é uma alergiazinha, já em tratamento domicilar mesmo. Mamãe dorme um bocado, mas mais um pouco e eu começo a carregá-la pra rua comigo. Vai voltar a caminhar e, se Deus quiser, em breve vai retomando a normalidade (possível) da vida. Hoje chegou a Mi, a trabalho no final de semana, trazendo chuva e a Lu a tiracolo. Fui buscá-las no aeroporto pela manhã e já-já vamos jantar: elas vão se acabar no camarão enquanto eu, alérgico, me acabo só na vontade. Mas é bom demais tê-las aqui, comigo. Me sinto mais perto dos amigos de Sampa, de casa, de mim. E gosto de ciceronear, é fato. Amanhã tem praia com a Lu e - opa! - reunião de trabalho. Vou pegar um projeto de consultoria, que posso tocar no esquema home office e dentro da minha disponibilidade de tempo. Preciso trabalhar. Pela grana, necessária, e pra me sentir... hum, me falta a palavra. Pensei em "produtivo", "capaz", mas não é bem isso. Ou é isso, mas noutra esfera. Enfim, não só preciso como QUERO trabalhar. E vou. 25.2.08
RELATO 24 Os dias ficam mais difíceis por aqui. Mamãe está bem, mas essa condição de pontualidade do verbo "estar" nunca teve tanta força como agora. A condição geral de saúde dela flutua de um dia para outro, da manhã para a noite. Na quinta-feira, por exemplo, ela tossia forte e com muita secreção, estava sem força e respirava fraco. Só não corremos para uma emergência em gastrocirurgia ou pneumologia ou, sei lá, qualquer coisa que a acudisse porque mamãe não tinha força sequer para sair de casa. Já hoje, sem que nenhum vento alísio soprasse, acordou disposta, animada, e passou o dia inteiro na casa das primas fuxicando, jogando baralho e se divertindo a valer. Nem posso me encher de responder quando perguntam como ela está, porque realmente a resposta varia demais. Amanhã pela manhã ela terá consulta com o oncologista para vermos uma radiografia do tórax e avaliarmos a evolução do derrame pleural - aparentemente, comparando com os exames anteriores, eu diria que a volume de líquido baixou um pouco, mas quero ouvir a opinião do médico. Levaremos também um ultrassom da bexiga, para tentar descobrir a origem da incontinência (alguém aí manja de hidronefrose? é o que diz no laudo). Estando tudo sob controle, nessa semana ela retoma a quimioterapia, para o segundo ciclo. Outra novidade é que mamãe faz quase todas as refeições via oral. Ainda se alimenta pela sonda uma vez ou duas por dia, por recomendação da nutricionista, já que come em pequenas quantidades e precisa de suplementação especial (os tais imunossupressores), mas é um avanço e tanto. Talvez a questão urgente mais delicada sejam as tensas relações familiares. Aqui na titia, ficamos eu, mamãe, minha babá e, claro, a dona da casa. Quatro pessoas de gênio forte, cheias de velhas-opiniões-formadas-sobre-tudo e vivendo situações-limite. Vejamos: 1) Minha tia perdeu o pai há 3 meses e o marido (irmão de mamãe) há 45 dias. Chora todo dia. Apavorou-se com o medo de ficar sozinha nesta casa, já que os filhos são todos casados e ela "não tem mais ninguém", como diz. Além disso, sua mãe de 80 e tantos anos tem Alzheimer e dá indícios de poder pifar a qualquer momento. E ela ainda teme pela saúde da minha mãe, sua quase-filha e quase-irmã, e do meu outro tio, aquele do linfoma, que começou o tratamento quimioterápico mas é destrambelhado demais e nos demanda atenção e cuidados. 2) A babá, muito nervosa desde o diagnóstico da doença de mamãe, agora sofre ela mesma com a labirintite e uma dor insuportável no cóccix, agravada pelas atividades domésticas que ela insiste em assumir para aliviar a sobrecarga da "secretária" oficial de titia. Para complicar, seu pai, um velhinho de quase 100 anos, está se ultimando lá no interior, e parece que cabe a ela a responsabilidade de manter a cabeça no lugar enquanto a família toda desaba - família que a Bruxa ajuda a sustentar, mandando mensalmente parte do salário mínimo que recebe pelo serviço que abomina desempenhar na empresa onde pena por trabalhar. Coitada. 3) Mamãe... ah, mamãe dispensa comentários. Ela luta contra um câncer metastaseado muito agressivo, perdeu o apetite desde que colocou a sonda nasoenteral, deixou as atividades todas, está fora de sua casa, não sai sem a desconfortável proteção de uma fralda descartável, toma remédios e mais remédios, não consegue dormir a noite inteira mesmo dopada... e depende dos outros, o que deve ser o maior desafio para uma mulher que sempre contou apenas consigo mesma. 4) E eu, que vou meditando e me segurando para manter a mente sã e o espírito tranqüilo. Sem trabalho, sem dinheiro, sem autonomia sobre a minha agenda, sem a segurança (ainda que frágil) de confiar na providência divina, lidando com as demandas prementes e as possibilidades iminentes - ora alento, ora terror. Ou seja, estamos todos justificadamente tensos, e um ambiente de indivíduos fora das suas CNTP é extremamente propício a que aflorem interpretações erradas, desconfianças, frustrações, cobranças... É tentador, porque confortavelmente natural nessas horas, "desabafar" para aliviar a pressão e falar sem pensar. Assim é que minha tia responde grosseiramente quando perguntamos por que ela chora ("Meu marido morreu, e eu não tenho direito de chorar?"), e a babá solta sem cuidado que deveria ter aceitado um convite para sair do país, e minha mãe abusa de sua condição para exigir caprichos que nos tiram a paciência, e eu negligencio algumas responsabilidades e me sinto egoísta e culpado porque tenho saído com mais freqüência para encontrar meus amigos - ou me encontrar comigo. Mas ainda encontro lucidez e força (que, acredito, vem da boa energia e do amor recebido) para chamar as três para a realidade quando elas parecem desgarrar: lembro que estamos todos passando por provações, que precisamos manter a calma e nos concentrar no que realmente importa, que são os suportes tantos que damos uns aos outros aqui. Uma amiga budista diz que nós estamos num processo constante de aprendizado em busca da elevação espiritual. Se assim for, eu realmente acho que estou fazendo um intensivo de algumas matérias. E o curso é pesado, vou te contar. Mas eu sempre fui bom aluno. P.S.: Em noite de Oscar, eu normalmente escreveria sobre a premiação, mas não tava in the mood. Vou só fazer uma menção honrosa ao prêmio de roteiro original para a Diablo Cody (que "diablo" de nome é esse?), pelo trabalho primoroso em Juno, um filme superfofo sem ser cretino e com diálogos deliciosos. Merecidíssimo. 18.2.08
RELATO 23 Finalmente, internet em casa de novo. Muita coisa aconteceu nos últimos dias: Clara, companhia tão tão tão cúmplice, esteve aqui, pra minha muita felicidade; mamãe dançou e riu no carnaval; recebi outra proposta irrecusável de trabalho que teve de ser recusada; voltamos e desvoltamos pra nossa casa (muito quente, mamãe não agüentou, e aqui na titia temos gente, sombra, espaço etc.); me apaixonei e desapaixonei Hoje fui à praia, depois de levar mamãe para assistirmos à missa. Missa é um sacrifício a que me submeto pelos outros: não consigo encontrar com Deus na igreja, não vejo sentido naquele ritual, naquele discurso. Faz tempo que deixei de acreditar no catolicismo ou na palavra da bíblia. Então fui visitar o mar e olhar pro céu - aí, sim, eu comungo com Deus. Ando distante dele, me sinto sem fé. Eu normalmente rezo todo dia, do meu jeito de rezar, logo quando acordo, mas aqui (por "aqui" entenda-se essa circunstância dos últimos meses) não sei onde foi parar minha fé, só sei que parou, justo quando dela mais preciso. Esse contato com as vastidões (céu, mar), apesar de indesejadamente esporádico, ainda é o que me aproxima do sublime, da transcendência, da supraconsciência que eu chamo de deus. Agradeci pela oportunidade de passar por esse aprendizado junto com minha mãe e pela força de que estamos investidos e pedi proteção. Pedi também pela saúde de outras mães - mães amigas, mães de amigos -, que agora sei o quanto devasta ver mãe sofrer. Pedi perdão por algumas falhas e faltas, pois me sinto relapso e irresponsável comigo, com meus planos, com os outros. Tento não pensar nessas coisas, mas me consome não pensar, como se eu me omitisse de mim mesmo. E me cobro por respostas e atitudes que não tenho como oferecer nesse momento. É, é uma confusão mental e emocional, nem eu entendo. Deixemos pra lá, ou não. Mamãe. Ela estava muito bem até 4 dias atrás: voltou a comer e já faz duas refeições por dia via oral, mastigando, deglutindo, um avanço inimaginável tão cedo (o médico falou até de retirar a sonda). Mais disposta e animada, começou a caminhar e parecia que já já ia correr. Uma bênção. Mas na quinta passada tivemos a sexta e última sessão do primeiro ciclo de quimio, e no dia seguinte mamãe amanheceu mais fraca. De lá pra cá, não sei se como efeito da droga, está ofegante, o peito chiando, debilitada. Fala baixo, a voz rouca, e sente muito incômodo na garganta. Quis levá-la a uma emergência ontem, mas ela preferiu ficar em casa descansando. Depois de uma noite e uma tarde bem dormidas, fomos à jogatina dominical na casa das primas, e o carteado deu uma levantada no ânimo. Agora ela dorme aqui do lado, levantando a cada 15 minutos para ir ao banheiro. Vamos investigar essa incontinência amanhã também. Well, hora de mimir. Tenho menos de 4 horas para descansar - e tô mortinho. Amanhã escrevo mais, que preciso cuspir umas macaúbas entaladas aqui. 13.2.08
INTERLÚDIO 4 Só pra dizer que está tudo bem, sob controle. Pelo menos aquele nada que a gente chama com displicência e sem cuidado de "tudo" quando tem que responder protocolarmente sobre como anda a vida. Falta internet pra escrever mais assíduo. E falta inteligência para abordar tantos assuntos que me arrolam (amolam? assolam?) o juízo. Mas tô pra escrever, quiçá hoje à noite. Precisando 6.2.08
INTERLÚDIO 3 Recebi o texto abaixo do Guiu, meu amado irmão que TANTA falta me faz. Ele mandou para mim e para alguns outros, pares nossos nessa busca ("necessidade"? "desejo"? "fome"?) pelo que chamo, sem descuido nem pressa, de amor. É Caio Fernando Abreu. Dois ou três almoços... uns silêncios... Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome. (Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" em 22/04/1986) Tão lindo. Que fala de anseios tão nossos, de buscas e encontros e apostas e pequenas mortes. Epifanias, tão nossas também. Eu quereria casar com Caio, se os morangos já não tivessem mofado. Casaria de fazer casa, talvez até de fazer caso também. Sabido, esse rapaz. Citando Florbela: eu quero amar, amar perdidamente. E quero me apaixonar de novo, todo dia, o tempo todo, muito e forte. E logo. P.S.: Depois eu conto do carnaval. De hoje, quem conta é a Biute, que veio almoçar o tão famoso vatapá de Dona Mamãe, feito especialmente para ela, a pidona. Olha o relato dela e me diz se podia ter quarta-feira de Cinzas menos cinzenta... 3.2.08
RELATO 22 CHEGÔ-Ô-Ô-OU, A E ontem já teve praia, nem tão cedo, mas teve praia com direito a carangueijo, pastel de arraia e água de côco. Teve sol, muito sol, e banho de mar. Teve amigos, gente bonita, vergonha alheia, amor fraterno e, principalmente, conversa muita, que ali é uma matraca da melhor qualidade. E só a Clara (ok, a ex-roomatetambém, mas ela não tava aqui) pra me servir de interlocutora acerca de certos assuntos, proibidos nas rodas locais porque locais, como sobre o "acabocamento" (entenda quem puder) inerente, arraigado, característico do Ciarazim-de-meu-deus e do seu nosso povo. Já comentei sobre esse mal-estar, mas foi ótimo ter com quem transformar impressões em expressões, sabe? Às vezes eu sinto que a trilha sonora pro meu personagem nesse spin-off da sitcom é Marisa Monte cantando "Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação", tão alienígena me sinto por sempre dizer "obrigado", "por favor", "com licença", ou por não jogar lixo na rua (e reclamar quando o fazem), ou por ceder a preferência a idosos e gestantes, ou por não falar palavrão. A Marida diz que, se o nordestino é antes de tudo um forte, o cearense é antes de tudo um bruto. E assim é, excetuadas as exceções (tchu-ru-ru!). Eis que sinto falta, pois, da cordialidade enlatada dos EUA, que mal conheço e tanto admiro, refém da aculturação histórica a que me venho submetendo. Tadinho. Mas eu acho é bom, e assim deixo. Como baião-de-dois com nuggets, e daí? Não sou mais nem menos por isso, sou só assim, "diferente", como repetem sem conseguir disfarçar o constragimento em algumas rodas familiares. Eu sou feliz, tia, me perdoe. Não vou forçar uma lágrima, não quero fazer cara feia pro mundo, e motivos todos temos pra qualquer coisa, mas é escolha nossa a máscara que vamos usar no Carnaval e além dele. Whatever. Arrumando o baú de tranqueiras de mamãe (ela tem um baú de tranqueiras, feito em vime, onde guardamos as palavras-cruzadas, o batom, os óculos, uns papéis, grampos de cabelo e badulaques diversos que não têm melhor canto ou propósito), descobri um envelope amarelo, com um desenho familiar já visto numa certa caixa de madeira. Era correspondência de um meu irmão, com pílulas e medalhinhas de Frei Galvão. Que já nos tinha escrito uma carta aberta (lá no blog) de Hoje pouca coisa faz sentido, este post inclusive. Não consigo concatenar as idéias direito: deve ser o torcicolo que persiste há 5 dias. Não virando o pescoço, fica restrito meu olhar. E, com um horizonte de amplitude engessada, mais ainda me perco nas divagações. Olho pra frente, mas pouco enxergo. Sabe como é? Pois é. 1.2.08
RELATO 21 Primeiro de fevereiro, sexta-feira de carnaval. Todo mundo vai pra Olinda, pro Rio, pra Salvador, pra alguma cidade litorânea, e eu, que adoro aproveitar os dias de Momo para tirar o atraso do cinema e das leituras, mantenho a programação mudando só o cenário – e acrescentando os cuidados médicos com a senhora minha progenitora. Devo também ir à praia, tirar o mofo com Dona Biute, que chega mais tarde do já nosso Sumpaulo. Mamãe está bem, apensar da perna inchada. Natural, em decorrência dos trombos, segundo o médico. Vamos observando. Ontem ela se submeteu à quarta sessão de quimio, novamente reagindo bem. Mais duas semanas e avaliaremos se a droga utilizada vai surtindo efeito e se o líquido no pulmão está baixando, já que não pode ser puncionado por enquanto. A propósito, saíram os resultados da citologia oncótica e da biópsia da pleura: "células epiteliais neoplásicas, positivo para malignidade". Como esperado. Ou seja: todo cuidado é pouco para com os pulmões de dona mamãe, com metástase, inundados pelo derrame e sob risco de embolia. Felizmente ela continua não sentindo falta de ar, então parece que alguma coisa (o organismo dela, as vibrações positivas de todo mundo, Deus, o que seja) mantém a situação controlada. No mais, tem o estresse da babá, nervosa com as saúdes de seu pai e de minha mãe. Ela não dorme direito, conversa menos, vive de mau humor e hoje amanheceu com uma crise de labirintite. Brinco, faço ela rir, dou umas ordens de "durma" ou "vá dar uma volta", mas o efeito dura pouco, e logo volta a cara amuada. Sei o que fazer com ela não, além de comprar delícias de padaria e lavar a louça para aliviar sua carga. Mas já isso se arruma também. O fardo é pesado, não posso querer que ela sorria o tempo todo, ainda mais se nem eu consigo essa façanha. Mais tarde vamos assistir ao desfile das escolas de samba pela TV, em família. Rir das pássaras-de-fôga (né, chuchu?), das musas de plástico, da inventividade plurilexical dos canavalescos e da cobertura ginecológica de algumas redes de televisão. Carnaval é o nosso ópio e o nosso ócio. Isquindô! ~ início ~ |
~ lendo ~ Alê (BGML) Balu (Sim, eu OdeioSopa!) Beth (E-Beth) Camila (Tapetes de Penélope) Clara (The Clara Beauty Journal) Clau (Lettiânia) Djoh (Caminho Dourado) Ematoma (Objetos de desejo) Gabby (Nêga do leite) Guiu (Perto do coração selvagem) Lola (Escreva Lola Escreva) Marie (Je suis Marie) Phelipe (papel pop) Rafaela (Letra e Música) Renata (o livro de areia) Ronaldo (Satyricon) TDUD? (Te dou um dado?) em que quer acreditar. ~ ~ passado ~ agosto-2009 junho-2009 maio-2009 abril-2009 março-2009 agosto-2008 junho-2008 maio-2008 abril-2008 março-2008 fevereiro-2008 janeiro-2008 dezembro-2007 novembro-2007 outubro-2007 setembro-2007 agosto-2007 março-2007 fevereiro-2007 janeiro-2007 dezembro-2006 novembro-2006 outubro-2006 setembro-2006 agosto-2006 julho-2006 junho-2006 maio-2006 abril-2006 março-2006 fevereiro-2006 janeiro-2006 dezembro-2005 novembro-2005 outubro-2005 setembro-2005 agosto-2005 julho-2005 junho-2005 maio-2005 abril-2005 março-2005 fevereiro-2005 janeiro-2005 dezembro-2004 novembro-2004 outubro-2004 setembro-2004 agosto-2004 julho-2004 junho-2004 maio-2004 abril-2004 março-2004 outubro-2003 setembro-2003 junho-2003 maio-2003 abril-2003 março-2003 fevereiro-2003 janeiro-2003 dezembro-2002 novembro-2002 outubro-2002 setembro-2002 agosto-2002 julho-2002 |
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